A Casa dos Relógios ParadosCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

O casarão da rua do Sino

Clara Medeiros nunca soube que tinha uma tia-avó até receber a carta do cartório. Tia Odília, morta aos noventa e quatro anos, deixara para ela o casarão da rua do Sino, em Paraty, com tudo o que havia dentro. "Tudo", segundo o tabelião, era uma palavra generosa e um pouco assustadora.

Chegou numa tarde de chuva fina, com uma mala, uma caixa de ferramentas e a intenção de vender a casa o mais rápido possível. A fachada era de pedra escura, coberta de trepadeiras, com janelas altas de venezianas descascadas. A chave de ferro girou com dificuldade, e a porta se abriu soltando um suspiro de ar parado.

Lá dentro, o cheiro era de cera, poeira e algo mais antigo, que ela não soube nomear. Os móveis estavam cobertos por lençóis brancos. No corredor, o assoalho rangia a cada passo. E havia relógios.

Relógios por toda parte. De parede, de pêndulo, de mesa, de bolso pendurados em ganchos, um de cada lado da escada, outro sobre a lareira, mais um dentro do armário da cozinha. Eram dezenas, talvez centenas, de formatos e épocas distintas. E todos, sem exceção, estavam parados na mesma hora.

Três e dezessete.

Clara riu, nervosa. Tirou o celular do bolso, fotografou o relógio da sala e mandou para a melhor amiga, Júlia: "Herdei um museu da hora errada."

A resposta veio rápida: "Que arrepio. Vende logo."

Passou a primeira noite no quarto do segundo andar, que parecia o único limpo. A cama era de ferro, com colcha de crochê, e uma lamparina de óleo repousava sobre a mesinha. Havia, na parede, um relógio de cuco, também parado. Clara o encarou por um tempo.

Três e dezessete.

Adormeceu com a chuva batendo nas vidraças. Acordou ao ouvir um tique.

Abriu os olhos. O quarto estava escuro, mas, no silêncio, o som se repetiu, baixo, claro, mecânico. Tique. Tique. Tique.

Acendeu a lamparina e olhou em volta. Todos os relógios estavam parados como antes. Mas o ruído continuava, vindo de baixo, do andar térreo, como se alguém, lá longe, tivesse acabado de dar corda em um deles.

Desceu devagar, com a lamparina na mão. A luz tremia nas paredes. No corredor, o assoalho rangia sob seus pés descalços. Ela parou diante do relógio de pêndulo, aquele alto, de madeira escura, que dominava a sala.

O pêndulo estava balançando.

Clara ficou imóvel. O ponteiro dos minutos avançou, um pequeno salto metálico. Três e dezoito.

E, no andar de cima, uma porta se abriu.

Comentários do capítulo (1)

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S

Gostei.

1 d