A Cidade Sem Wi-FiCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

Dia um sem internet

A internet caiu em Boa Esperança do Sul numa segunda-feira, às 7h12 da manhã, e a cidade levou quarenta minutos para perceber que não era só o roteador de cada um.

A primeira a notar foi dona Zuleica, dona do salão de beleza, que não conseguiu abrir o aplicativo de agendamentos. A segunda foi a Lurdinha da padaria, que não achava a maquininha de cartão. O terceiro foi o prefeito, que ficou encarando a tela do celular, vendo as barrinhas de sinal desaparecerem uma por uma.

— Alguém derrubou a internet — anunciou, no discurso improvisado diante da prefeitura. — Estamos investigando.

— Foi o cabo, seu prefeito — gritou alguém. — A retroescavadeira da obra cortou o cabo de fibra, na estrada.

— E quanto tempo para consertar?

O técnico da operadora, um rapaz de camisa polo e olheiras, informou por telefone fixo, o único aparelho que ainda funcionava:

— Trinta dias.

Houve uma onda de silêncio, depois um gemido coletivo, como uma vaia a um time que perdeu.

— Trinta dias? — repetiu dona Zuleica. — Eu preciso de internet para viver!

— Dona Zuleica, a senhora tem cinquenta e oito anos. Viveu quarenta e dois sem internet.

— Mas era outra época!

A manhã foi uma sucessão de pequenas tragédias. O pessoal da lanchonete não sabia mais calcular troco. O jovem do cartório esqueceu a senha do computador e teve de procurar o papelzinho. A farmácia parou porque os remédios controlados só se registravam online. Os adolescentes, sentados no meio-fio, olhavam as telas sem saber o que fazer com as mãos.

— Isso é um apocalipse — murmurou um menino de catorze anos.

— É uma segunda-feira — corrigiu o avô, que passava de bicicleta. — E eu ainda tenho meu rádio.

À tarde, a cidade se reuniu espontaneamente na praça. Ninguém combinou. Foi como se, sem o fio invisível que os conectava ao mundo, os moradores sentissem uma necessidade primitiva de se enxergar.

Alguém trouxe um banquinho. Outro trouxe garrafas de guaraná. Dona Zuleica trouxe cadeiras de plástico. O seu Antenor, marceneiro, tirou o violão do estojo.

— O que a gente faz? — perguntou o prefeito.

— A gente conversa — disse a Lurdinha. — Faz tempo que não conto o que aconteceu com o meu cachorro.

— Você tem cachorro? — perguntou dona Zuleica.

— Tenho há três anos.

— Nunca soube!

— Pois é. A gente só se vê nas fotos.

Riram. O riso foi tão sonoro que atraiu mais curiosos. À noite, a praça estava cheia de famílias, de crianças correndo, de velhos jogando dominó. As luzes do coreto acenderam-se, e uma sensação estranha pairou no ar: um misto de saudade e descoberta.

Quando a lua apareceu, o prefeito subiu ao coreto.

— Meus caros — disse, ajeitando a gravata —, acho que vamos sobreviver.

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