A agulha de prata
Em Vento Fino, as casas ficavam penduradas em correntes de ar e as ruas eram pontes de corda que balançavam ao ritmo das marés do céu. Ninguém ali tinha medo de altura. Tinham medo, sim, de um céu desarrumado.
Ana Beltrão acordava todas as manhãs antes do sol, quando as nuvens ainda estavam cruas, soltas e sem forma. Descia pela escada de cordas até a oficina na borda da cidade, vestia o avental de lã azul e pegava a agulha de prata que herdara da mãe. Era comprida como um antebraço, leve como um suspiro, e brilhava com uma luz própria, fraca, parecida com a de uma estrela cansada.
Costurar nuvens era um ofício antigo. Havia as nuvens de chuva, pesadas e de bordas escuras, que precisavam de pontos firmes para não derramar tudo de uma vez. Havia as nuvens de sombra, delicadas, que protegiam os pomares do sol forte. E havia as nuvens de sonho, quase transparentes, que só os mais pacientes conseguiam alinhavar.
Naquela manhã, Ana estava trabalhando numa nuvem de chuva para a colheita de Pedra Alta, a cidade vizinha. Passava o fio de vapor entre as camadas, puxava, apertava, cortava. O gato Pompom, que era mais pelo do que gato, dormia sobre uma pilha de algodão celeste.
— Dois pontos a mais na borda esquerda — murmurou ela. — Senão o vento rasga tudo.
Foi quando o chão estremeceu.
Primeiro ela achou que fosse uma rajada forte. Depois ouviu um estalo, longo e seco, vindo do alto, como se alguém rasgasse um tecido enorme. Ana largou a agulha e correu até a janela.
No horizonte, onde o céu encontrava o mar de bruma, havia uma fenda. Uma linha escura, torta, de onde pendiam fiapos de azul solto. Por ela escorria uma luz estranha, esverdeada, que Ana nunca vira.
— Não pode ser — sussurrou. — O céu não rasga. O céu só desfia.
Pompom acordou, arrepiou o pelo e miou baixinho.
Outras pessoas já se juntavam na rua de corda. Dona Tilde, a padeira, apontava com a espátula. O velho Gaspar, mestre dos ventos, balançava a cabeça com ar de quem já esperava aquilo. As crianças gritavam, mais por empolgação do que por medo.
— Tem alguém roubando os fios — disse Gaspar, quando Ana chegou perto. A voz dele era rouca como uma porta antiga. — Faz semanas que as nuvens saem da oficina mais finas do que deveriam. Eu avisei o conselho. Ninguém quis ouvir.
— Roubando? Quem roubaria fios de chuva?
— Quem quer o céu sem nuvem, menina. — O velho olhou para ela com seriedade. — Quem quer o mundo seco e dependente.
Ana sentiu um frio na barriga. Voltou à oficina quase correndo, abriu o baú da mãe e retirou de lá um mapa de couro, dobrado e amarelado, que nunca tivera coragem de abrir. Nele, desenhados com tinta cor de ferrugem, havia três reinos flutuantes: o das Marés Altas, o dos Ventos Quietos e o Reino das Tempestades.
No verso, uma frase em letra miúda: "Quem costura o céu deve saber onde ele começa."
Ana engoliu em seco. A agulha de prata vibrou em sua mão, como se concordasse.
— Tudo bem — disse ela, ao gato, que a encarava de olhos arregalados. — Vamos descobrir quem está puxando os fios.