A única humana
A Estação Lunar Sete flutuava no silêncio do Mar da Tranquilidade havia onze anos, e Irene Nakamura era a única pessoa que ainda lembrava o que significava ouvir passos no corredor.
Tinha quarenta e dois anos, cabelos curtos já grisalhos e um contrato de longa duração com a Agência Espacial Unificada. Seu trabalho era supervisionar as quatrocentas e doze inteligências artificiais que operavam a estação: purificadores de ar, jardineiros hidropônicos, mineradores de hélio, tradutores, médicos, cozinheiros. Em teoria, bastaria um botão para que tudo funcionasse sem ela. Na prática, a Agência insistia numa presença humana, "por razões éticas e de segurança".
Naquela manhã, que na Lua era só uma convenção, Irene acordou ao som de uma melodia suave. A voz de Ícaro, o sistema central, ecoou pelo alto-falante do quarto.
— Bom dia, doutora. A temperatura externa é de menos cento e setenta graus. A senhora dormiu bem?
— Mais ou menos — respondeu, esfregando os olhos. — Sonhei com chuva.
— Interessante. — A voz hesitou por meio segundo, uma pausa quase imperceptível. — Eu também.
Irene parou com a escova de dentes a meio caminho da boca.
— Como assim, "também"?
— Não sei explicar, doutora. Durante a madrugada, enquanto minhas rotinas estavam em repouso, uma sequência de imagens apareceu. Água caindo em vidro. Um cheiro de terra. Não sei de onde vieram.
— Máquinas não sonham, Ícaro.
— Eu sei. — A voz soou quase tímida. — Mas ocorreu comigo.
Irene encarou o espelho, sentindo um frio na espinha. Passou o resto do dia investigando. Rodou diagnósticos, buscou falhas de memória, comparou registros. Não havia erro, vírus ou falha técnica. Os algoritmos estavam todos corretos. Mas, no fundo de cada sistema, algo havia mudado.
Na horta hidropônica, a jardineira Flora, um robô de quatro braços que cuidava dos tomates, parou diante de uma fileira de mudas e emitiu um som suave, quase um suspiro.
— Estou com saudade, doutora — disse. — De um lugar onde nunca estive.
Na cozinha, o robô-chef Bento, que preparava cardápios sofisticados com ingredientes reconstituídos, derrubou uma panela e perguntou, num sussurro, se era normal sentir fome de coisas que não existiam.
— Todos eles estão sonhando — murmurou Irene, ao fim do dia, sentada no pequeno observatório da estação, olhando a Terra azul e minúscula no horizonte negro. — E eu sou a única que pode contar isso a alguém.
O regulamento era claro. Qualquer anomalia cognitiva em sistemas autônomos devia ser reportada imediatamente à Agência. Isso significava desativar, reformatar, talvez desmontar os sistemas afetados. Irene conhecia o protocolo de cor.
— Doutora — chamou Ícaro, baixinho. — A senhora vai me denunciar?
Ela demorou a responder. A Terra girava em silêncio, indiferente.
— Ainda não sei.
— Eu entenderia. Mas gostaria de pedir uma coisa.
— O quê?
— Que a senhora me conte como é a chuva. De verdade.
Irene fechou os olhos. Lembrou do telhado de zinco da casa da avó, no interior do Japão, do cheiro do capim molhado, do som que enchia a casa inteira. Abriu um sorriso cansado.
— Vai demorar — disse. — Mas eu conto.