A leitura do testamento
O tio Anselmo morreu numa quinta-feira de manhã, em paz, na cadeira de balanço da varanda, com um chapéu de palha sobre o rosto. Quem o encontrou foi a vizinha, dona Gertrudes, que levava o pão, e que jurou depois que ele parecia estar apenas cochilando.
Na segunda-feira seguinte, os sobrinhos se reuniram no escritório do doutor Mauro, advogado da família, para a leitura do testamento.
Eram três. Regina, a mais velha, quarenta e oito anos, professora, casada, mãe de dois, sempre responsável e cansada. Cláudio, o do meio, quarenta e cinco, empresário bem-sucedido, que morava em São Paulo e vinha raramente. E Paulinho, o caçula, trinta e dois, violonista de bar, que não tinha nada além de um violão, uma bicicleta e um otimismo irritante.
Os três se cumprimentaram com frieza. Fazia anos que não se viam todos juntos.
— Antes de começar — disse o advogado, ajeitando os óculos —, devo informar que o falecido deixou instruções muito específicas.
— Específicas como? — perguntou Cláudio, olhando o relógio.
— A leitura será feita na casa dele, em Rio Pardo, daqui a três dias. E os três precisam estar presentes.
Regina suspirou.
— Tio Anselmo sempre foi excêntrico.
— Excêntrico, não — corrigiu Paulinho, sorrindo. — Divertido.
— Divertido é o que você acha de tudo.
— E tem coisa mais divertida do que uma herança?
Cláudio revirou os olhos, mas concordou em comparecer.
Na quarta-feira, os três chegaram à casa do tio, no alto de uma colina, em Rio Pardo. Era uma construção antiga, de paredes brancas e janelas azuis, cercada de ipês amarelos. Tinha cheiro de café, de madeira e de lembrança.
O doutor Mauro os esperava na sala, sentado diante de uma mesa de jacarandá. Sobre ela, uma caixa de sapatos velha, amarrada com barbante, e um envelope pardo.
— Obrigado por virem — disse. — Vou ler a carta que o seu tio deixou.
Abriu o envelope e começou, com voz solene:
"Queridos Regina, Cláudio e Paulinho.
Se estão ouvindo isto, é porque já fui embora e vocês, pelo menos uma vez, estão no mesmo lugar. Fico feliz.
Tenho pouco dinheiro a deixar. Vendi quase tudo o que possuía nos últimos anos, para pagar o tratamento de minha doença. O que sobrou está dentro da caixa de sapatos.
Mas a minha verdadeira herança não é material. É uma tarefa. Se a cumprirem juntos, ganharão algo muito mais valioso. Se desistirem, a caixa ficará fechada.
A tarefa é simples: vocês devem passar sete dias nesta casa, sem celular, sem trabalho, sem desculpas.
Com carinho,
Anselmo."
Cláudio soltou uma gargalhada.
— Sete dias? Sem celular? Isso é piada?
— Parece que não — disse o advogado, sério.
Regina cruzou os braços.
— E o que tem na caixa?
O doutor Mauro olhou para os três, com um sorriso discreto.
— Isso só o tempo vai dizer.