Areia nos olhos
A primeira coisa que ela sentiu foi o gosto de sal. A segunda, o peso de uma roupa encharcada colada ao corpo. A terceira, a ausência: um buraco branco no lugar onde deveria haver um nome.
Abriu os olhos. Um céu muito azul, sem nuvens, e gaivotas girando em silêncio. Estava deitada de lado numa praia de areia clara. Ao longe, ondas quebravam num ritmo preguiçoso.
Sentou-se devagar. Tinha cerca de trinta anos, pelo que o reflexo na poça de maré mostrava. Cabelo escuro, uma cicatriz fina acima da sobrancelha esquerda, pulsos queimados de sol. No bolso da calça, encontrou uma chave de latão e um pedaço de papel dobrado, ilegível pela água.
— Ei! — gritou alguém.
Quatro pessoas se aproximavam pela areia. Um homem grande, de barba grisalha e braço enfaixado com um trapo. Um rapaz magro, de uns vinte anos, com óculos quebrados. Uma senhora de cabelos brancos, andando com dificuldade. E uma menina, talvez de doze anos, que carregava um sapato só.
— Você também não lembra? — perguntou o rapaz, ofegante.
Ela balançou a cabeça.
— Nada. Nem meu nome.
— Nenhum de nós lembra — disse a senhora. — Acordamos faz uma hora, em pontos diferentes da praia. Procuramos uns aos outros.
O homem grande cuspiu sal.
— Houve um naufrágio. Dá para ver os destroços ali adiante. Mas nenhum de nós sabe o que era o barco, para onde ia, ou quem somos.
Os cinco caminharam até os destroços. Pedaços de madeira, uma cadeira quebrada, um colete salva-vidas rasgado. Num pedaço de casco, pintada em tinta branca desbotada, uma palavra pela metade: "...URORA".
— Aurora — disse a menina.
Todos olharam para ela.
— Parece certo — completou, encolhendo os ombros.
A mulher da cicatriz deu um passo para trás, intrigada. Havia algo na palavra que fazia o peito dela apertar, como uma porta entreaberta.
Sem pensar mais, o grupo decidiu por consenso: precisavam de água, abrigo e informação. Ela, que parecia mais calma, foi escolhida para liderar a exploração.
— Mas eu nem sei quem sou — protestou.
— Ninguém aqui sabe — rebateu o rapaz. — Então pode ser qualquer um.
Resolveram dar nomes provisórios. O homem grande virou Urso. A senhora, Dona Brisa. O rapaz, Óculos. A menina, Sapato. A mulher da cicatriz foi chamada de Chave, por causa da peça de latão.
Seguiram a linha de árvores, e dali, o terreno subia em direção ao interior da ilha. Ao longe, uma torre de pedra escura rompia o verde, como um dedo apontando para o céu.
— Aquilo é um farol — disse Óculos.
— Parece abandonado — observou Urso.
Chave apertou a chave no bolso. Algo na torre a atraía, e ela não sabia explicar.
Enquanto andavam, o sol começou a baixar e as primeiras sombras se esticaram. Dona Brisa parou e olhou para o mar.
— A maré está subindo — comentou, com a voz baixa. — E não vejo nenhum barco.
Atrás deles, a praia onde acordaram já estava coberta d'água.