O rio calou
Na aldeia de Barra Alta, onde o Rio Verde faz uma curva larga antes de entrar na floresta, todo mundo sabia que o rio cantava.
Não era imaginação. Quem sentava na margem, de manhã cedo, ouvia uma melodia suave, feita de água, de vento e de peixes. Os velhos diziam que era a voz da mãe-d'água, que cantava para as plantas crescerem. As crianças aprendiam a cantar junto antes mesmo de aprender a falar.
Maíra tinha dez anos e a melhor voz da aldeia. Todos os dias, ao amanhecer, descia até o píer de madeira, sentava com os pés dentro d'água e cantava para o rio. E o rio respondia.
Naquela manhã, porém, não respondeu.
Maíra cantou uma, duas, três vezes. Esperou. Nada. Só o silêncio pesado, o vento parado, a água escura e quieta como vidro.
— Rio? — sussurrou. — Está tudo bem?
Nenhuma resposta.
Correu para casa e acordou o avô, seu Benedito, um velho de pele escura e olhos serenos, que conhecia todas as histórias da floresta.
— Vô, o rio parou de cantar!
O avô sentou-se na rede, com um suspiro cansado.
— Já faz uns dias que sinto — disse. — A água está diminuindo. Os peixes sumiram. As plantas estão murchando.
— Mas por quê?
— Não sei, minha filha. Mas só há um jeito de descobrir.
— Qual?
— Seguir o rio até a nascente.
Maíra arregalou os olhos. A nascente ficava a muitos dias de canoa, no coração da floresta, onde poucos haviam ido e menos ainda voltado.
— Mas é longe!
— Por isso mesmo. Alguém precisa ir. E você é a única que sabe ouvir o rio.
— Eu? Mas eu só tenho dez anos!
O avô sorriu e pegou, no baú ao lado, uma pequena flauta de bambu.
— Foi do meu pai. Dizem que ajuda a chamar os amigos da floresta. Leve com você.
Na manhã seguinte, Maíra partiu numa canoa estreita, com uma sacola de farinha, uma cuia de água e a flauta pendurada no pescoço. O avô e toda a aldeia acenaram da margem, silenciosos.
— Volte com a canção — disse seu Benedito.
A menina remou devagar. Quando fez a curva do rio e a aldeia sumiu, sentiu um aperto no peito. Estava sozinha pela primeira vez.
De repente, a água ao lado da canoa se agitou. Um vulto rosado emergiu, soprando vapor, e dois olhos pequenos e sábios fitaram a menina.
— Boa tarde, Maíra — disse um boto cor-de-rosa, com uma voz mansa e profunda. — Estava te esperando.