O Toque da Epifania

Os sinos de Rocabruna começaram a tocar pouco depois da meia-noite, e o frei Tomás de Ardena soube, antes mesmo de largar a pena, que algo se rompera na ordem do mundo.
Estava na biblioteca, no alto da torre leste, copiando um tratado de ervas à luz de uma única vela. Fazia três semanas que o rei Aldric o mandara buscar na abadia, com uma instrução curta: catalogar os livros do reino antes que o inverno terminasse. Tomás era monge copista, tinha trinta e dois anos, mãos manchadas de tinta e o hábito de notar o que os outros preferiam não ver. Naquela noite, a da vigília da Epifania, o rei devia estar na capela real, em oração solitária, como mandava a tradição de Valdoria.
Os sinos não eram os da missa. Eram toques rápidos, desordenados, de alarme.
Tomás desceu a escada de caracol, atravessou o pátio coberto de neve e chegou à galeria da capela junto com uma pequena multidão de criados, damas em camisolas e soldados meio vestidos. Na porta de carvalho, diante da qual nenhum súdito jamais ousara bater durante a vigília, estava o capitão da guarda, sir Rodrigo Valcourt, com o machado de abrir portões nas mãos.
— Por ordem do chanceler — disse ele, e golpeou a madeira.
A porta resistiu duas vezes, cedeu na terceira. Do outro lado, a capela era um poço de frio. Seis velas queimavam no altar, e à frente delas, de joelhos, de costas para a nave, estava um homem de manto de peles, as mãos postas, a cabeça inclinada.
— Majestade — chamou Rodrigo.
Ninguém respondeu. Rodrigo avançou, tocou o ombro do homem e o recuou, como se tivesse tocado em ferro.
— O rei está morto — disse.
Um gemido atravessou a galeria. Uma dama caiu de joelhos. Do fundo do corredor, apressado, surgiu o bispo Odilon, chanceler do reino, de camisola de lã e barrete de dormir, as mãos sobre o peito.
— Deus nos acuda — disse, mas olhava, Tomás reparou, para o relógio de areia da parede, e não para o corpo. — Que fique registrado: Sua Majestade partiu ao primeiro toque da Epifania. Passava da meia-noite. Era já o dia santo.
— O senhor tem certeza da hora, excelência? — perguntou Tomás, sem perceber que falara.
O bispo o fitou com olhos pálidos, de peixe velho.
— Quem é o senhor? Pois fique na biblioteca, frei. Há coisas que cabem apenas à Coroa.
Tomás baixou a cabeça, mas continuou olhando. Do lugar onde estava, a poucos passos da porta arrombada, via a capela inteira. O frio era brutal, mais frio que o pátio. Havia geada na barba branca do rei, cristais minúsculos nas sobrancelhas, nas peles do manto. O corpo não tinha o menor vestígio de calor. E o ar tinha um cheiro estranho, adocicado, que ele conhecia de quando, na abadia, trouxeram um monge morto que ficara três dias esquecido numa cela de inverno.
Tomás observou as velas. Eram seis, grossas, novas, com apenas um pequeno poço de cera derretida no topo. Um homem que fizesse vigília desde o crepúsculo, sete horas ou mais, teria visto aquelas velas reduzidas a tocos.
Era um detalhe. Talvez nada. Ele o guardou assim mesmo, numa gaveta interior da memória onde a cera, a geada e a pressa do bispo ficaram, esperando que alguém lhes desse sentido.
Lá fora, a neve voltou a cair. Os sinos pararam. E Valdoria, pela primeira vez em trinta e um anos, ficou sem rei.