Capítulo 1 — A Criada que Via a Luz
Inverno de 1443. Palácio de Gyeongbokgung, Hanyang.
O frio do décimo segundo mês entrava pelas frestas do papel de arroz como uma agulha. Yun Seol-hwa, dezessete anos, esfregava o chão do corredor da biblioteca real com as mãos tão vermelhas que pareciam pertencer a outra pessoa.
Quatro anos antes, essas mãos seguravam um pincel. Seu pai fora um letrado do interior, acusado injustamente e exilado, e a família se desfez como névoa. Seol-hwa entrou no palácio como criada de baixo escalão e aprendeu depressa a regra mais dura da corte: mulheres não deviam ler. Os caracteres chineses, os hanja, eram um muro alto, e do lado de dentro ficavam apenas os homens.
Mesmo assim, toda noite ela via a luz.
No Jiphyeonjeon, o Pavilhão dos Sábios, uma lamparina permanecia acesa muito depois de os guardas trocarem de turno. Dizia-se que o próprio rei Sejong passava ali as madrugadas. Dizia-se que Sua Majestade andava perdendo a vista de tanto estudar. Dizia-se, ainda, que ele resmungava sozinho, observando a própria boca refletida numa bacia de água.
Naquela noite, Seol-hwa levava chá de gengibre aos escribas. Parou à porta com a bandeja trêmula, e o que viu a fez esquecer o frio.
Num canto, um jovem erudito de vinte e poucos anos, Lee Seon-woo, de olhos cansados e tinta no queixo, desenhava formas estranhas numa folha. Um traço dobrado em ângulo. Um quadrado. Um círculo pequeno. Não eram hanja. Eram outra coisa.
— Quem está aí? — perguntou ele, sem levantar a cabeça.
— A criada do chá, senhor. Perdão.
— Entre. O chá está esfriando, e eu também.
Ela entrou, pousou a bandeja e, por descuido ou por destino, olhou a folha por tempo demais.
— O senhor desenhou a minha boca — disse, antes de pensar.
Seon-woo ergueu os olhos pela primeira vez.
— O quê?
— Este aqui. — Ela apontou o quadrado. — É a boca fechada. Quando digo "mãe", os lábios se unem assim. E este traço dobrado é a raiz da língua fechando a garganta, como no som "ga". — Ela repetiu baixinho e sentiu, de fato, a língua subir. — Eu só estava reparando em como falo, senhor.
O silêncio se estendeu. No fundo da sala, uma sombra que ela tomara por uma pilha de livros se mexeu. Era um homem de meia-idade, em seda simples, sem insígnias, segurando uma folha igual à de Seon-woo.
— Menina — disse ele, com voz baixa e cansada —, repita o que disse.
Seon-woo se pôs de pé num salto e curvou-se até o chão. Seol-hwa entendeu, com um calafrio, quem era o homem de olhos inchados e sorriso discreto. Ajoelhou-se, a testa colada às tábuas.
— Majestade...
— Levante-se. Alguém lhe ensinou estas letras?
— Ninguém, Majestade. Eu apenas... escutei a minha boca.
O rei Sejong sorriu pela primeira vez em muitas noites.
— Era a resposta que eu esperava de um sábio — murmurou. — E ela vem de uma criada do chá.
Lá fora, a neve começou a cair, e uma lua fina apareceu entre as nuvens, branca como papel novo.
— Seon-woo — disse o rei. — Encontramos a nossa primeira leitora.