BackupCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

Ponto de restauração

Caio Menezes tinha uma regra profissional: nunca confie em um sistema sem backup.

Por doze anos, trabalhou como engenheiro de dados numa empresa de logística, desenhando rotinas que copiavam, versionavam e restauravam bilhões de registros todas as noites. Se algo falhasse, havia sempre um ponto para onde voltar.

Na vida pessoal, no entanto, nunca aplicou a própria regra.

Num único mês de março, perdeu o emprego numa reestruturação e recebeu da esposa, Marina, uma frase dita com calma na cozinha:

— Eu preciso de um tempo, Caio. Longe de você.

Ela saiu com duas malas, um vaso de samambaia e o gato. O apartamento ficou grande demais. O silêncio ocupou cada cômodo, até a geladeira.

Nas primeiras semanas, Caio quase não saiu da cama. Pedia comida por aplicativo, deixava as embalagens se acumularem, assistia a séries sem enxergá-las. No décimo oitavo dia, ao procurar um carregador, encontrou numa gaveta uma caixa de papelão com a etiqueta "Backup — Caio, 2014".

Reconheceu a própria letra. Dentro, havia um HD externo, antigo, coberto de poeira.

Ligou o disco no computador. Levou um tempo para reconhecê-lo. Quando abriu, deparou com pastas bem organizadas: fotos, cartas digitalizadas, textos de faculdade, projetos pessoais, gravações de voz. Tudo de dez anos antes, de uma versão de si que quase esquecera.

Abriu uma pasta chamada "Sonhos". Dentro, um documento de texto com data de 12 de junho de 2014.

"Lista do que quero fazer antes dos 35:

1. Escrever um livro.

2. Aprender a tocar violão de verdade.

3. Viajar sozinho para um lugar onde ninguém fale português.

4. Ter uma casa com quintal.

5. Ser alguém que a Marina admire."

Caio releu. Tinha trinta e nove anos. Nenhum dos itens estava cumprido, exceto, talvez, o último, e mesmo esse parecia ter ruído.

Ficou muito tempo olhando a tela. Depois abriu outra pasta, "Voz". Havia dezenas de arquivos de áudio. Clicou num qualquer, e uma voz jovem, entusiasmada, encheu a sala:

— Oi, Caio do futuro. Aqui é o Caio de 2014. Se você está ouvindo isso, é porque deu certo ou deu muito errado. Em qualquer caso, quero te lembrar de uma coisa: você é capaz de muito mais do que pensa. Não se esqueça de tocar violão, tá?

Caio riu, depois chorou, depois riu de novo, sozinho no apartamento.

Foi então que teve a ideia. Estranha, talvez estúpida. Mas a única que lhe pareceu fazer sentido.

Abriu um bloco de notas e escreveu o título:

"Plano de restauração de sistema — Caio Menezes".

E, embaixo:

"1. Criar um ponto de restauração.

2. Identificar qual versão mais vale a pena recuperar.

3. Testar em ambiente seguro antes de aplicar."

Era, ele sabia, uma maneira de transformar dor em procedimento. Mas era também a primeira vez em semanas que sentia vontade de fazer alguma coisa.

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