O sótão
Quando minha mãe morreu, em março, eu achei que o pior já tinha passado. Os velórios, a missa, os pêsames repetidos. Mas ninguém me avisou de que o pior vinha depois, devagar, em forma de caixas.
Passei abril inteiro esvaziando a casa de Ouro Verde, uma cidadezinha de rua de terra e igreja amarela onde cresci. Dei roupas para o asilo, livros para a escola, móveis para quem precisasse. Faltava só o sótão.
Subi numa tarde de sábado, com uma lanterna e um lenço no nariz. A escada rangia. O ar cheirava a madeira velha e naftalina. Lá em cima, entre caixas de natal, bonecas sem braço e um ventilador quebrado, encontrei um baú de couro marrom, trancado com um cadeado minúsculo.
Voltei com um alicate. O cadeado cedeu sem resistência.
Dentro havia três coisas: um caderno de capa azul, um vestido amarelo dobrado com cuidado e um maço de cartas amarradas por uma fita desbotada.
Peguei as cartas. O envelope de cima tinha uma letra redonda de adolescente, escrita a caneta esferográfica: "Para Lúcia Almeida — rua das Palmeiras, 42". Era o nome de solteira da minha mãe, e o endereço da casa onde eu estava.
No canto, em lápis, alguém escrevera uma data: "Janeiro de 1985".
Minha mãe tinha, então, quinze anos.
Sentei no chão empoeirado e abri a primeira.
"Querida Lúcia,
Você deve estar achando esquisito eu escrever depois de ontem, mas não consegui dormir direito. Quando o ônibus saiu e te vi acenando da janela, eu percebi uma coisa: a gente se conheceu há apenas três semanas, mas parece que foi há três anos.
Prometo escrever toda semana. Você promete responder?
Seu amigo,
Tiago."
Li de novo, devagar. Nunca tinha ouvido falar de um Tiago. Minha mãe nunca mencionara um namorado de adolescência, um amigo de verão, nada. Ela me contara tantas histórias de infância, e aquela não estava entre elas.
Abri a segunda carta, escrita em letra miúda e inclinada, no papel pautado de caderno escolar. Era dela.
"Tiago,
Prometo. Mas só se você jurar que não vai rir quando eu contar uma coisa. Eu guardei o canivete que você me deu no dia da praia. Não tenho coragem de usar, mas também não consigo me desfazer.
Mamãe descobriu que a gente se escreve. Ficou furiosa. Disse que o seu pai não é gente para a nossa família. Não entendi o motivo. Você entende?
Lúcia."
Parei de ler. Tinha o coração acelerado, e uma sensação estranha de estar invadindo um território sagrado.
Havia mais de trinta cartas. Eu tinha uma tarde inteira pela frente.
Peguei a lanterna, ajeitei o caderno azul sobre os joelhos e comecei a descobrir quem minha mãe fora antes de ser minha mãe.