A primeira carta
Odete Vasconcelos sempre achou que a viuvez fosse um silêncio. Descobriu, três meses depois do enterro de Joaquim, que era um barulho. Barulho de geladeira que ninguém abria, de chuveiro que ninguém usava, de relógio que continuava marcando horas como se nada tivesse acontecido.
Naquela terça-feira de agosto, ela estava sentada à mesa da cozinha, em frente à toalha de crochê que ele tanto gostava, olhando para um bloco de papel pautado que comprara na papelaria do bairro sem saber exatamente por quê.
— Escreva — dissera a psicóloga do posto de saúde, uma moça jovem de olhos gentis. — Não precisa mandar. Só escreva o que sentir.
Odete pegou a caneta, hesitou, e começou.
"Joaquim,
Hoje fiz o café do jeito que você gostava, forte demais, com pouco açúcar. Tomei sozinha. Fiquei olhando a sua xícara na prateleira e não tive coragem de lavar. A pia está cheia de saudade, e o sabão acabou.
A Marlene ligou para dizer que o jardim dela está florido. Eu disse que o meu também, mas é mentira. Esqueci de regar as violetas e agora estão tortas, como se me cobrassem alguma coisa.
Sinto raiva de você, às vezes. Raiva por ter ido primeiro, por ter me deixado com todas as senhas, as contas, as janelas emperradas. E depois sinto vergonha, porque sei que você não escolheu. Mas a raiva vem assim mesmo, sem pedir licença.
Sua Odete."
Releu o texto duas vezes. Era estranho ver tanta verdade num papel tão simples. Dobrou a folha ao meio e, sem pensar muito, guardou numa caixa de sapatos que ficava em cima do guarda-roupa. Era a caixa onde Joaquim guardava as cartas que ela escrevera para ele, quando eram namorados, há mais de quarenta anos.
Nos dias seguintes, escreveu outras. Uma sobre a tarde em que se conheceram, no baile da igreja, ele com o terno emprestado do irmão. Outra sobre a primeira geladeira que compraram, em dezoito prestações. Outra, mais difícil, sobre o filho que perderam ainda bebê, e que nunca haviam conseguido mencionar em voz alta.
Cada carta era um pequeno funeral e, ao mesmo tempo, uma pequena ressurreição.
Foi numa quinta-feira de chuva que ela cometeu o erro. Tinha escrito uma carta sobre o aniversário de casamento e, depois, escreveu o endereço da casa no envelope, por hábito, como quem preenche um formulário. Colocou selo, apenas porque encontrou um na gaveta. Deixou o envelope sobre o aparador, perto da porta, ao lado de outras contas.
No dia seguinte, o carteiro, com pressa, recolheu tudo.
Odete só percebeu quando ouviu o barulho da moto se afastando. Correu até o portão, de chinelo, no meio da garoa. Era tarde. A carta, a mais íntima de todas, a que falava do filho, já tinha partido para algum lugar do mundo, destinada a ninguém.