A proposta indecente
Lívia Prado tinha três empregos, uma mãe com pressão alta, um irmão caçula desempregado e uma pilha de boletos que crescia mais rápido do que seus cabelos. Naquela segunda-feira, às oito e meia da manhã, estava sentada diante de Gabriel Tavares, dono da Móveis Tavares, com um currículo tremendo na mão.
— A vaga de vendedora já foi preenchida — disse ele, sem levantar os olhos da planilha. — Mas tenho outra proposta.
Gabriel tinha trinta e cinco anos, ombros largos, terno impecável e a expressão de quem nunca perdeu uma negociação. Era conhecido na cidade por duas coisas: a loja mais cara do bairro e a fama de ser um solteirão inconformado.
— Que proposta? — perguntou Lívia, desconfiada.
— Preciso de uma noiva.
Ela piscou.
— Como?
— Uma noiva de mentira. — Ele finalmente a encarou. — Minha avó vai fazer oitenta anos no fim do ano e prometeu me deixar a herança de uma fazenda, com uma condição: que eu esteja comprometido. Não tenho tempo para romances e, francamente, nenhuma paciência para jogos. Preciso de alguém inteligente, discreta e que aguente seis meses de jantares em família.
— O senhor está louco.
— Pago dez mil por mês.
Lívia engasgou.
— Dez mil?
— E quito seus boletos atrasados. — Ele sorriu pela primeira vez, um sorriso curto, calculado. — Pesquisei sua situação. Desculpe a invasão.
Ela deveria ter ido embora. Deveria ter dito não, levantado a cabeça e saído com dignidade. Mas a imagem da mãe, sentada na sala, contando moedas para comprar remédio, surgiu em sua cabeça como uma bofetada.
— Quais são as regras? — perguntou, num fio de voz.
Gabriel tirou da gaveta um contrato de quatro páginas, já impresso, e o empurrou sobre a mesa. Lívia leu, com o coração aos saltos. Cláusula primeira: nenhum envolvimento romântico real. Cláusula segunda: aparições públicas semanais. Cláusula terceira: beijos, apenas quando estritamente necessários.
— "Estritamente necessários" — leu ela, erguendo uma sobrancelha. — Quem decide o que é necessário?
— Eu. — Ele sorriu de novo. — Ou a situação.
— Isso é ridículo.
— Isso é negócio.
Lívia pegou a caneta. A mão tremia, e ela odiou a própria tremedeira. Pensou no irmão, na mãe, no aluguel atrasado.
— Uma condição minha — disse, firme. — Nada de mentiras além das necessárias. Se eu tiver de inventar uma história, vou inventar do meu jeito.
Gabriel hesitou, estudou-a por um segundo, depois assentiu.
— Combinado.
Assinaram. Apertaram as mãos. A dele era quente e firme, e Lívia soltou rápido demais.
— Então. — Ele ajeitou a gravata. — Sábado, às oito, jantar na casa da minha avó. Vista algo discreto. E, por favor, não mencione a palavra "contrato".
— Entendido, noivo.
Quando saiu da loja, Lívia encostou na parede e respirou fundo. Do outro lado da vitrine, Gabriel a observava com uma expressão estranha, mistura de alívio e curiosidade, como se, sem querer, tivesse aberto uma porta que não sabia onde levava.