Crônicas da Janela da CozinhaCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

A samambaia da dona Nair

Toda manhã, às seis e quinze, dona Nair abre a janela do segundo andar do prédio em frente e rega as samambaias. Eu a vejo do outro lado da rua, da janela da minha cozinha, enquanto espero a água do café ferver.

Nunca trocamos mais que um aceno. Ela ergue o regador como quem faz um brinde, eu levanto a xícara, e cada uma segue a sua vida. Mas tenho a impressão de que esse gesto simples sustenta uma parte da minha manhã.

Houve um tempo em que eu não prestava atenção nessas coisas. Acordava correndo, engolia o café em pé, saía com a bolsa mal fechada e o pensamento adiantado em reuniões que ainda nem tinham começado. A janela da cozinha, para mim, era só uma moldura para a pia.

Foi depois que me aposentei que a janela se transformou em outra coisa. Passei a ter tempo, esse bem estranho que a vida inteira nos prometeu e que, quando chega, a gente não sabe onde pôr. Resolvi pôr o tempo na janela.

Aprendi coisas. Aprendi que o carteiro, o seu Euclides, assobia sempre a mesma música antiga, e que ela muda quando ele tem uma carta boa para entregar. Aprendi que o menino do terceiro andar desce de bicicleta às sete e meia, com a mochila batendo nas costas, e que ele olha para trás três vezes, como quem confere se a mãe ainda está na varanda. Ela está sempre.

Aprendi que a padaria da esquina abre a porta de ferro com um barulho que ninguém reclama, porque virou despertador do bairro. E que existe um gato cinzento que atravessa a rua em passos medidos, sem olhar para os carros, convicto de que a rua inteira lhe pertence. Até agora, tem razão.

Dona Nair, porém, é a minha preferida. Tem uns oitenta anos, cabelo branco preso num coque pequeno e um avental de bolinhas que, juro, nunca vi trocar. Rega as samambaias com uma concentração de cirurgiã. Quando uma folha amarela, ela a corta com uma tesourinha, e eu fico imaginando o que diz à planta enquanto faz isso.

Um dia, perguntei na padaria se alguém a conhecia.

— A dona Nair? — disse a moça do balcão. — Ela perdeu o marido faz dois anos. Antes, quem regava as samambaias era ele. Ela ficou só com a obrigação.

Voltei para casa pensando naquilo. A obrigação. A tarefa que o outro deixou e que a gente continua fazendo, não por dever, mas para manter um pedaço dele vivo, tal como um fio que não se quer soltar.

No dia seguinte, às seis e quinze, a janela do outro lado se abriu. Dona Nair apareceu com o regador. Ergueu-o no ar, como sempre. Eu levantei a xícara.

Mas dessa vez, em vez de voltar à pia, fiquei olhando. Vi as gotas caindo devagar, desenhando pequenos arcos de luz. Vi as folhas se curvarem, agradecidas. Vi a velha sorrir sozinha, para ninguém, ou para alguém.

E entendi que há gestos que não precisam de plateia. Basta que sejam feitos com amor, todas as manhãs, até o fim.

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