O motorista que dá bom-dia
O ônibus das sete sai do terminal com pontualidade suíça e passageiros de humor variável. Pego esse horário há onze anos, e creio que já vi em seus bancos todas as versões possíveis do ser humano às sete da manhã: o dorminhoco, o apressado, o triste, o apaixonado, o que finge que lê, o que lê de verdade.
Mas a figura que mais me marcou é a do motorista.
Chama-se seu Valdemar, tem sessenta e poucos anos, bigode grisalho e uma voz de locutor de rádio. Todas as manhãs, assim que a porta do ônibus se abre, ele diz, sem exceção:
— Bom dia! Sejam bem-vindos!
No começo, achei esquisito. Passageiro não costuma ser bem-vindo em lugar nenhum, muito menos num ônibus lotado, onde o cheiro de perfume barato se mistura ao de pão com manteiga. Mas seu Valdemar dizia aquilo com tamanha convicção que a gente acabava acreditando.
Com o tempo, percebi o efeito. As pessoas começaram a responder. Primeiro baixinho, entre os dentes. Depois, com mais coragem. Hoje, quando entro, o ônibus inteiro devolve:
— Bom dia, seu Valdemar!
Há quem ache exagero. Um rapaz de fone de ouvido, novo na linha, revirou os olhos na primeira vez. Na terceira, já respondia. Na décima, aprendeu o nome do motorista e passou a perguntar pela família.
Um dia, conversando com seu Valdemar no ponto final, perguntei de onde vinha aquele costume.
— Do meu pai — respondeu ele, ajeitando o boné. — Era motorista também. Dizia que o ônibus é a primeira porta da cidade. Se a pessoa entra bem, sai melhor.
— E funciona?
— Funciona mais do que dinheiro.
Guardei a frase. E passei a reparar em outros detalhes. Seu Valdemar sabe o nome de quase todos os passageiros fixos. Pergunta a uma senhora pela netinha doente, a um estudante pela prova de matemática, a um vigia pela mulher que está grávida. Não é curiosidade, é carinho.
Numa manhã de chuva forte, vi uma coisa que nunca esqueci. Uma moça subiu no ônibus encharcada, tremendo, com os olhos vermelhos de choro. Ninguém disse nada. O ônibus seguiu, silencioso, até que seu Valdemar, sem tirar os olhos da estrada, falou em voz alta:
— Hoje o dia está difícil para todo mundo. Mas a gente chega.
Foi só isso. Uma frase simples, solta no ar. A moça levantou a cabeça. Uma senhora lhe ofereceu um lenço. Um rapaz cedeu o lugar.
No ponto seguinte, a moça desceu com um sorriso discreto.
Passei muito tempo pensando naquilo. Percebi que, às vezes, o que mais falta numa cidade grande não é transporte, nem segurança, nem dinheiro. É alguém que diga bom-dia como se fosse verdade.
Hoje, quando entro no ônibus das sete, não me limito a responder. Olho para o motorista e agradeço. Ele ri, confuso, sem saber por quê.
Eu sei.