Diário de uma Garota de Quinze AnosCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

Querido diário

Querido diário,

Hoje foi o primeiro dia de aula do segundo semestre e eu já quero voltar para a cama.

Calma, deixa eu começar do início, porque a dona Marta (minha professora de português, a única adulta que acredita em diário) falou que a gente deve contar as coisas em ordem. Ordem cronológica, ela disse. Eu escrevi "cronológica" no caderno e depois fiquei dez minutos olhando a palavra, achando que parecia nome de remédio.

Pois bem. Acordei às seis e quinze, porque o despertador do meu celular é um traidor. Tomei café correndo, escovei o dente sem vontade e saí de casa com a mochila aberta. Minha mãe gritou da porta: "Júlia, o casaco!". Eu fingi que não ouvi. Cheguei na escola morrendo de frio.

A Bia, minha melhor amiga desde os sete anos, me esperava no portão, com aquele cabelo cacheado que parece ter vida própria e o sorriso de quem guarda uma fofoca.

— Júlia! Você não sabe o que aconteceu!

— O quê?

— Chegou aluno novo na nossa sala!

— E daí?

— E daí que ele é lindo.

Revirei os olhos. A Bia acha todo mundo lindo. Já achou o cara da padaria, o professor de educação física, o primo da vizinha e até o cachorro da dona Regina (que, aliás, é bonito mesmo).

Mas quando entrei na sala, tive que reconhecer: dessa vez ela tinha razão.

Ele estava sentado na última carteira da fileira da janela, com um fone no pescoço e um caderno aberto. Cabelo escuro bagunçado, camiseta cinza, tênis meio gasto. Tinha uma cara de quem vive com o pensamento longe, mas ao mesmo tempo prestando atenção em tudo.

— Esse é o Tiago — sussurrou a Bia, sentando-se ao meu lado. — Veio de Minas.

— Tipo, de outra cidade?

— Tipo, de outro estado, Júlia.

O professor de matemática entrou, e todo mundo se acomodou. Eu tentei prestar atenção na aula de equações, mas meus olhos teimavam em ir para a janela. Quando virei, pela terceira vez, ele me flagrou.

Não sorriu. Só levantou uma sobrancelha, de leve, como quem pergunta: "O que foi?".

Voltei os olhos pro caderno tão rápido que torci o pescoço.

Querido diário, eu sei que tenho quinze anos e que isso é só um garoto. Mas eu nunca senti o coração bater assim nas aulas de matemática. Nem em nenhuma outra.

Resolvi escrever pra você porque, bem, ninguém mais pode saber disso. Nem a Bia. Principalmente a Bia.

Por enquanto.

Beijos,

Júlia.

P.S.: Esqueci o casaco. Estou com frio. Minha mãe tinha razão. Não conta pra ela.

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