Querido diário
Querido diário,
Hoje foi o primeiro dia de aula do segundo semestre e eu já quero voltar para a cama.
Calma, deixa eu começar do início, porque a dona Marta (minha professora de português, a única adulta que acredita em diário) falou que a gente deve contar as coisas em ordem. Ordem cronológica, ela disse. Eu escrevi "cronológica" no caderno e depois fiquei dez minutos olhando a palavra, achando que parecia nome de remédio.
Pois bem. Acordei às seis e quinze, porque o despertador do meu celular é um traidor. Tomei café correndo, escovei o dente sem vontade e saí de casa com a mochila aberta. Minha mãe gritou da porta: "Júlia, o casaco!". Eu fingi que não ouvi. Cheguei na escola morrendo de frio.
A Bia, minha melhor amiga desde os sete anos, me esperava no portão, com aquele cabelo cacheado que parece ter vida própria e o sorriso de quem guarda uma fofoca.
— Júlia! Você não sabe o que aconteceu!
— O quê?
— Chegou aluno novo na nossa sala!
— E daí?
— E daí que ele é lindo.
Revirei os olhos. A Bia acha todo mundo lindo. Já achou o cara da padaria, o professor de educação física, o primo da vizinha e até o cachorro da dona Regina (que, aliás, é bonito mesmo).
Mas quando entrei na sala, tive que reconhecer: dessa vez ela tinha razão.
Ele estava sentado na última carteira da fileira da janela, com um fone no pescoço e um caderno aberto. Cabelo escuro bagunçado, camiseta cinza, tênis meio gasto. Tinha uma cara de quem vive com o pensamento longe, mas ao mesmo tempo prestando atenção em tudo.
— Esse é o Tiago — sussurrou a Bia, sentando-se ao meu lado. — Veio de Minas.
— Tipo, de outra cidade?
— Tipo, de outro estado, Júlia.
O professor de matemática entrou, e todo mundo se acomodou. Eu tentei prestar atenção na aula de equações, mas meus olhos teimavam em ir para a janela. Quando virei, pela terceira vez, ele me flagrou.
Não sorriu. Só levantou uma sobrancelha, de leve, como quem pergunta: "O que foi?".
Voltei os olhos pro caderno tão rápido que torci o pescoço.
Querido diário, eu sei que tenho quinze anos e que isso é só um garoto. Mas eu nunca senti o coração bater assim nas aulas de matemática. Nem em nenhuma outra.
Resolvi escrever pra você porque, bem, ninguém mais pode saber disso. Nem a Bia. Principalmente a Bia.
Por enquanto.
Beijos,
Júlia.
P.S.: Esqueci o casaco. Estou com frio. Minha mãe tinha razão. Não conta pra ela.