Dragões de SilícioCapítulo 1 de 6
Capítulo 1

A ferraria de Dona Orla

No reino de Vaelor, as montanhas cantavam. Quem passava por elas ao anoitecer ouvia um zumbido grave, quase musical, vindo do fundo da rocha, e os velhos diziam que era a respiração dos dragões adormecidos.

Tessa não acreditava em dragões. Acreditava em martelos, em brasa e em dívidas.

Tinha dezesseis anos e trabalhava havia quatro na ferraria de Dona Orla, no vilarejo de Pedraval. O trabalho era duro: manter a forja acesa, bater metal até as palmas sangrarem, e esculpir, nos intervalos, os pequenos chips de runa que alimentavam as lanternas, os fornos e os relógios do povoado.

Porque em Vaelor a magia não vinha de varinhas nem de feitiços. Vinha de pedras. Pequenas lâminas de cristal negro, gravadas com linhas finas como cabelo, que guardavam pensamento. Os magos as chamavam de "silícios", em memória de um idioma já morto. Quanto mais fina a gravação, mais poderosa a pedra.

Naquela manhã de outono, Dona Orla chamou Tessa ao fundo da oficina.

— Tenho uma encomenda — disse, a voz baixa. — Do castelo.

— Do rei?

— Do capitão da guarda. Pedem cem chips de comando, de camada tripla, em três luas.

Tessa arregalou os olhos. Cem chips daquele tipo eram trabalho de um ano inteiro.

— Para quê?

— Não perguntaram. E não me agrada a pressa deles.

A velha ferreira tinha o rosto marcado por queimaduras antigas e uma bondade escondida sob muita aspereza. Segurou o braço da aprendiz.

— Escuta. Faça o que mandarem, mas guarde um pedaço de cada pedra. Uma lasca. Uma lasca de cada, entendeu? Na hora certa, vai precisar.

— Para quê, Dona Orla?

A velha olhou para a janela, onde as montanhas se desenhavam em azul.

— Quando eu era menina, meu avô me contou uma coisa. Que os chips não foram inventados. Foram encontrados. Nasceram do corpo de algo muito antigo e muito grande.

Tessa franziu a testa.

— Dos dragões?

— Pode ser. Ou não. Só sei que, quando o rei começou a pedir tantas pedras, as montanhas pararam de cantar.

Tessa pensou no zumbido que ouvia todas as noites, ao se deitar. Já fazia semanas que não o escutava.

Trabalharam duro nos dias seguintes. Tessa gravou chip após chip, às vezes até de madrugada, com uma agulha de ouro e uma lupa de vidro verde. Cada pedra, depois de pronta, brilhava num azul gélido, com um pulsar quase vivo.

Numa dessas madrugadas, ao terminar o sexagésimo chip, algo estranho aconteceu. A pedra, em sua mão, ficou quente. Muito quente. E começou a emitir um som baixinho, quase um ronronar.

— Dona Orla — chamou, assustada. — A pedra está... falando.

A ferreira acordou de supetão e correu até ela. Tessa levantou o chip. O ronronar se transformou em palavras, numa voz grave, cansada e muito antiga:

— Por favor. Não me deixe sozinho.

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