Memória RAMCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

A oficina do seu Wilson

A oficina de informática do seu Wilson Prado ficava no térreo de um sobrado apertado, entre uma lotérica e uma barbearia, na rua Direita de Ouro Fino. Havia quarenta anos, a placa desbotada anunciava: "Conserta-se tudo que pensa."

Davi Prado, o filho, só voltou à cidade porque a mãe ligou numa madrugada de março. Falou pouco, com a voz embargada: o pai tinha se perdido no caminho de casa. Foi encontrado pela vizinha, sentado num banco da praça, perguntando às pessoas onde ficava a rua onde morava havia cinquenta anos.

O diagnóstico veio duas semanas depois, numa sala fria de hospital. Doença de Alzheimer, estágio moderado. O médico falou em medicação, em rotina, em paciência. Davi ouviu tudo de cabeça baixa, olhando as próprias mãos. Aos trinta e oito anos, programador numa empresa de São Paulo, nunca tinha pensado em pensar no pai como alguém que pudesse esquecer.

Passou os primeiros dias na casa de infância, ajudando a mãe, dona Leonor, a organizar remédios e a esconder facas. À noite, quando todos dormiam, descia à oficina. Era um território quase intocado: balcões cheios de peças, gavetas rotuladas com letra caprichada, pilhas de computadores velhos, monitores de tubo, impressoras matriciais.

Seu Wilson sempre fora de poucas palavras. Ensinara o filho a soldar aos oito anos, a montar placas aos dez, a ler código de erro aos doze. Mas nunca falara de si mesmo. Davi sabia que o pai nascera em Pouso Alegre, que perdera o pai cedo, que se casara aos vinte e três. Nada além disso.

Foi numa quinta-feira, ao varrer o chão atrás de uma estante, que Davi encontrou uma caixa de papelão lacrada com fita crepe. Na tampa, em letra miúda: "Davi. Abrir quando eu esquecer."

O coração disparou.

Abriu a caixa devagar. Dentro, protegido por plástico-bolha, havia um computador antigo, de gabinete bege, daqueles de 1998, com disquetes empilhados ao lado. E um bilhete, também do pai, escrito num dia claro:

"Filho, se está lendo isto, é porque já não lembro. Fiz um backup de tudo o que eu era. Está nos disquetes. Comece pelo disco número 1. Vai demorar, porque eu pedi lentidão. Quero que você me conheça devagar."

Davi sentou-se no chão, as pernas bambas, com o bilhete na mão. Olhou para o computador velho, depois para a máquina de consertar o futuro, depois para a pilha de disquetes.

Ligou o gabinete na tomada. Um zumbido grave encheu a oficina, seguido de um bipe curto. Na tela de tubo, em letras verdes sobre fundo preto, surgiu uma mensagem:

"Bem-vindo, Davi. Estava esperando você."

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