O último trem da tarde
O apito do último trem da tarde cortou o ar de Santa Rita do Sapucaí às cinco e quarenta, como fazia havia mais de sessenta anos. Lúcia Andrade não precisava olhar o relógio para saber. Seu corpo já conhecia aquele som tão bem quanto o próprio nome.
Ela estava atrás do balcão de madeira escura do Café da Estação, com um pano de prato sobre o ombro, observando a poeira dourada que entrava pela vidraça. Fazia exatamente três semanas que sua avó Dorinha havia morrido, e o café, agora, era seu. A herança inteira cabia em um balcão rachado, seis mesinhas de ferro, uma máquina de café italiana mais velha que o pai de Lúcia e um caderno de receitas com a capa remendada de fita adesiva.
— Você devia vender isso aqui — dissera o tabelião, ajeitando os óculos. — A prefeitura já avisou que a linha vai ser desativada em março. Sem trem, sem passageiro. Sem passageiro, sem café.
Lúcia havia concordado com a cabeça, mas, desde aquele dia, não conseguira assinar nada. Todas as manhãs abria a porta, acendia as luzes e dizia a si mesma que era só por mais um dia.
O trem parou na plataforma com seu suspiro de ferro. Meia dúzia de pessoas desceu: uma senhora com sacolas, dois estudantes, um homem de terno amassado. Lúcia já tinha as xícaras alinhadas. Aprendera com a avó que o primeiro olhar de quem chega decide se a pessoa vai ficar ou seguir adiante, e que o cheiro de café fresco era a melhor maneira de convencê-la a ficar.
Os estudantes pediram pão de queijo. A senhora das sacolas quis só água e um lugar para sentar. O homem de terno amassado ficou por último, parado diante do balcão, com a mala pequena aos pés. Tinha olheiras fundas e um sorriso cansado que parecia pedir desculpas antecipadas por qualquer coisa.
— Um cafezinho, por favor — disse ele. — Sem açúcar. E sem pressa, se for possível.
Lúcia sorriu sem querer. Ninguém pedia aquilo ali. Todos tinham pressa, afinal, o trem era a única coisa que não esperava.
— Sem pressa é a especialidade da casa — respondeu ela.
Passou o café devagar, ouvindo o gorgolejar da máquina, e entregou a xícara de porcelana branca, daquelas grossas, com uma pequena lasca na borda. O homem segurou-a com as duas mãos, como quem se aquece em pleno verão.
— Meu nome é Tomás — disse. — Estou só de passagem.
— Todo mundo está — falou Lúcia, e foi só depois de dizer que percebeu o peso da frase. Ela mesma estava de passagem em sua vida, esperando uma decisão que não vinha.
Tomás tomou um gole, fechou os olhos e ficou assim por alguns segundos. Quando os abriu, havia algo diferente em seu rosto, uma espécie de alívio.
— Esse café — disse ele — tem gosto de casa que eu nunca tive.
Lúcia não soube o que responder. Então fez o que a avó faria: serviu mais um pouco, sem cobrar, e deixou o silêncio cuidar do resto.
Quando o trem seguinte apitou na curva distante, Tomás deixou algumas moedas sobre o balcão, agradeceu com um aceno e saiu para a plataforma. Lúcia ficou olhando até o último vagão sumir entre os eucaliptos.
Foi então que percebeu que ele havia esquecido algo sobre a mesa de ferro: um pequeno caderno de capa azul, preso por um elástico. Ela o pegou, hesitou e, sem abrir, guardou-o na gaveta do balcão, ao lado do caderno de receitas da avó.
Teria que devolver. Era só esperar que ele voltasse.