O corpo no quarto 7
O inspetor Caetano Moura chegou a Serra Branca numa manhã de neblina, com uma maleta de couro, um caderninho de capa preta e nenhuma voz. Três meses antes, um acidente de carro na estrada de Vitória lhe levara as cordas vocais. Os médicos disseram que talvez voltasse a falar. Talvez nunca.
O delegado local, Rubens, um homem robusto de bigode amarelado, o recebeu na porta da delegacia com um abraço desajeitado.
— Inspetor, que bom que veio. Mas o senhor... não fala?
Caetano sorriu, tirou o caderninho do bolso e escreveu, com sua letra caprichada: "Escrevo. E escuto melhor do que muita gente."
Rubens leu, coçou o bigode e riu, aliviado.
— Então já está servindo. Venha, o caso é no Hotel Mirante.
O Hotel Mirante era o único da cidade: três andares de madeira escura, com varanda de frente para o vale. Seu dono, Armando Pestana, sessenta e dois anos, fora encontrado morto na manhã anterior, no quarto sete, deitado de bruços ao lado da cama, com um copo de uísque quebrado ao lado da mão.
— A porta estava trancada por dentro — explicou Rubens, enquanto subiam a escada. — Tivemos que arrombar. Janela fechada, trinco passado. Ninguém entrou, ninguém saiu.
Caetano parou diante da porta arrombada e estudou o batente: a madeira rachada perto da fechadura, a chave ainda no lado de dentro. Anotou: "Chave na fechadura. Fresta embaixo da porta: dois dedos."
O quarto era pequeno e arrumado. Cama de ferro, armário de cedro, um quadro de paisagem torto na parede. O corpo já havia sido levado, mas o contorno de giz marcava o assoalho. Caetano se agachou e observou os cacos do copo. Havia pouco líquido derramado.
— O médico diz que foi infarto — comentou Rubens. — Mas sou desconfiado. O Armando tinha inimigos.
Caetano levantou o olhar, interrogativo.
— Dívidas, principalmente. O hotel andava vazio. E tinha o sobrinho, o Heitor, que queria vender tudo. Armando nunca aceitou.
O inspetor anotou: "Heitor. Dívidas. Quem mais?"
— A governanta, dona Zilda, que mora aqui há trinta anos. O cozinheiro, o seu Nelson. E um hóspede, um tal de professor Olavo, que estava hospedado há duas semanas fazendo pesquisa sobre aves.
Caetano caminhou devagar pelo quarto. Abriu o armário, tocou nos cabides, passou o dedo sobre o criado-mudo. Parou diante do quadro torto. Levantou-o com cuidado e olhou atrás. Nada. Mas, ao recolocá-lo, percebeu um arranhão fresco na parede, abaixo do prego, como se alguém tivesse retirado e pendurado a pintura às pressas.
Escreveu: "Quadro mexido recentemente."
— Isso importa? — perguntou Rubens.
O inspetor apenas sorriu. Depois foi até a janela, abriu o trinco, empurrou o vidro e olhou para fora. Havia uma calha lisa descendo até o jardim. Impossível subir por ali sem deixar marcas. Mas, no peitoril, quase invisível, via-se uma pequena mancha de graxa.
Caetano a tocou com a ponta do dedo e cheirou. Era óleo de máquina.
Ele escreveu uma última frase no caderninho, mostrou ao delegado e ficou observando sua reação:
"Esse quarto não estava trancado. Estava preparado para parecer trancado."
Rubens empalideceu.