O ovo que chocou diferente
Na Montanha Quente, onde os dragões moravam havia mil anos, todo filhote nascia soltando fumaça. Era tradição. Bastava quebrar a casca do ovo, espirrar uma vez, e pronto: uma bolinha de fogo saía pelo nariz, para a alegria de toda a família.
Só que o ovo de Pipo foi diferente.
Quando rachou, numa manhã de sol, o filhote saiu da casca meio torto, com as asas ainda molhadas e os olhos arregalados. A mãe, Dona Brasilda, uma dragoa vermelha e gorda, mal conseguia conter a emoção.
— Vai, meu filho! — incentivou. — Espirra! Mostra para o seu avô!
Pipo respirou fundo, contraiu o nariz e espirrou. Saiu uma faísca pequenininha, laranja, brilhante.
O filhote gritou.
— Fogo! Fogo! FOGO!
E correu para trás de uma pedra, tremendo dos pés à cauda.
O avô, Vovô Tição, um dragão enorme e rabugento, arregalou os olhos.
— Esse menino tem medo de fogo?
— Impossível — disse o tio Cinzas, tossindo.
— É só nervosismo — garantiu o pai, Seu Carvão, embora parecesse preocupado.
Mas não era só nervosismo. Nos dias seguintes, Pipo escondeu-se de fogueiras, fugiu de tochas e nunca chegou perto do caldeirão onde a família assava castanhas. Se alguém acendia um fósforo, ele dava um pulo de três metros e se enfiava dentro de um buraco.
Os outros filhotes zombavam.
— Dragão-medroso! — gritava Tição Júnior, o primo mais velho. — Dragão-frio! Dragão-geladinho!
Pipo chorava escondido atrás das samambaias, e o orgulho da família esfriava junto com suas lágrimas.
Numa noite de lua cheia, depois de ouvir mais um sermão do avô sobre honra e chamas, Pipo resolveu fugir. Pegou um embrulho de castanhas, deixou um bilhete de desculpas e desceu a montanha, em silêncio, de asas encolhidas.
Caminhou durante horas. Passou por rios, trilhas e campos adormecidos. No meio da madrugada, cansado, sentou-se num tronco caído e se pôs a chorar baixinho.
— Ei — disse uma voz fina, bem ao lado. — Você está bem?
Pipo deu um pulo. Atrás do tronco, uma menina de uns nove anos, de tranças e jaqueta amarela, segurava uma lanterna de pilha e uma mochila cheia de gizes coloridos.
— Meu nome é Rita — disse ela. — Você é um dragão de verdade?
— Sou — fungou Pipo. — Mas dos ruins.
— Por quê?
— Porque tenho medo de fogo.
Rita ficou um instante em silêncio. Depois sorriu, tão largo que a lanterna balançou.
— Que coincidência. Eu tenho medo de escuro.
E, pela primeira vez em muitos dias, Pipo não se sentiu tão sozinho.