O Faroleiro e a BaleiaCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

O farol da Ponta Seca

O farol da Ponta Seca ficava no fim do mundo, ou pelo menos era o que Tobias Ventura costumava dizer. Para chegar lá, era preciso pegar uma estrada de terra, atravessar um campo de capim-limão, descer uma trilha de pedras e, por fim, enfrentar quarenta e dois degraus de ferro enferrujado. Tobias os subia todos os dias há trinta e cinco anos, e conhecia cada rangido como o de um velho amigo.

Tinha setenta e um anos, barba branca, joelhos cansados e um gato cinzento chamado Capitão, que se achava o verdadeiro dono do lugar. Os dois dividiam a pequena casa ao pé da torre, com um fogão a lenha, uma cadeira de balanço e um rádio que só pegava duas estações.

Naquela noite de fim de maio, a lua estava cheia e o mar parecia de prata derretida. Tobias terminou de limpar as lentes da lanterna, acendeu o facho e sentou-se na varanda da torre, com uma caneca de chá de erva-cidreira nas mãos.

Foi quando ouviu o canto.

Primeiro, baixo, quase imperceptível, como um zumbido distante. Depois, mais forte, grave, comprido, uma nota que vibrava dentro do peito. Tobias ergueu a cabeça, e o coração deu um salto.

A cerca de cem metros da praia, a água se abriu, e uma enorme sombra cinza emergiu devagar, soltando um jato de espuma. Era uma baleia. Uma baleia-jubarte, enorme, com manchas brancas no dorso e uma cicatriz comprida no flanco esquerdo.

O canto continuou, sinuoso e melancólico. Tobias largou a caneca e se levantou, trêmulo.

— Meu Deus — sussurrou. — Faz trinta anos que você não aparece.

O velho voltou à lembrança. Era 1992, e ele tinha acabado de assumir o farol. Numa noite de tempestade, encontrara na praia uma filhote de baleia encalhada, ferida por uma rede de pesca. Com a ajuda dos vizinhos, passara a noite inteira molhando o corpo do animal e cortando as cordas com uma faca de cozinha. Ao amanhecer, a maré havia levado a filhote de volta, e ele jamais soube se sobrevivera.

A cicatriz no flanco da baleia era a mesma, que ele reconheceria em qualquer lugar.

— Você voltou — murmurou, e lágrimas rolaram pela barba. — Cresceu tanto.

A baleia pareceu ouvir. Aproximou-se um pouco mais da costa, e o canto mudou de tom: mais urgente, mais agudo, uma sequência de notas repetidas, como um aviso.

Capitão, o gato, saltou para o parapeito e arrepiou o pelo. Algo no ar estava diferente. O vento, antes calmo, tinha virado de direção. No horizonte, uma linha escura e baixa se formava, devorando as estrelas.

Tobias sentiu o estômago afundar. Conhecia aquele sinal.

— Tempestade — disse, olhando a baleia. — Foi por isso que você veio.

O animal mergulhou, com um último canto longo, e a água fechou-se sobre as costas. A lua, sem aviso, desapareceu atrás de uma nuvem.

Tobias desceu a escada de dois em dois degraus, apesar dos joelhos, e correu para o rádio.

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