Turno da madrugada
O Hotel Cápsula Aurora ocupava o antigo prédio de um banco no centro de Curitiba. Trinta e seis cabines empilhadas em três andares, uma recepção de vidro, uma máquina de café que só funcionava de madrugada. Bianca Lopes trabalhava lá havia oito meses, no turno que ninguém queria: das dez da noite às seis da manhã.
Gostava do silêncio. Gostava de organizar planilhas, de conferir senhas de acesso, de observar pelas câmeras os hóspedes dormindo em suas caixinhas de luz azul. Gostava, principalmente, de que nada acontecesse.
Naquela terça-feira de agosto, às duas da manhã, algo aconteceu.
O sistema apitou. Na tela do computador, um aviso em vermelho: "Cabine 404 ocupada."
Bianca franziu a testa. O hotel só tinha trinta e seis cabines, numeradas de 101 a 336. Não existia 404. Digitou o número no sistema de reservas, e a resposta foi um erro seco: "Registro não encontrado."
— Deve ser bug — murmurou.
Mas o aviso persistia. Abriu as imagens das câmeras de segurança, percorrendo corredor por corredor. No terceiro andar, ao fundo, uma porta que ela nunca vira estava entreaberta. Era escura, de madeira, com um número de metal pregado no centro: 404.
Um arrepio subiu pela nuca. Pegou a lanterna, a chave mestra e o rádio.
— Marcos, você está aí? — chamou, ligando para o segurança. — Preciso que suba ao terceiro andar.
Só obteve chiado. Marcos, que normalmente patrulhava até as quatro, não respondia. Tentou de novo e desistiu.
Subiu sozinha, pela escada. Os passos ecoavam nos degraus de aço. O terceiro andar estava mais frio do que o resto do prédio, e um cheiro estranho pairava no ar: papel velho, lavanda, e algo metálico, como sangue seco.
No fim do corredor, a porta 404 estava mesmo aberta. Do lado de dentro, uma luz amarela, trêmula, como de vela.
— Olá? — chamou, hesitante. — Algum hóspede?
Ninguém respondeu. Aproximou-se, empurrou a porta e espiou. O quarto era grande, de paredes forradas de papel de parede desbotado, com uma cama de ferro e um criado-mudo antigo. Sobre a cama, um homem dormia de lado, as costas voltadas para a porta, num pijama de listras.
— Senhor? Este quarto não está no sistema.
O homem não se mexeu. Bianca deu mais um passo. Foi então que percebeu o som: um sussurro contínuo, vindo de dentro das paredes, como milhares de vozes murmurando ao mesmo tempo, histórias entrecortadas, rezas, risos, choros.
Recuou. Quando se virou para fugir, a porta se fechou sozinha, com um estalo definitivo.
Atrás dela, a voz do homem soou, rouca, quase gentil:
— Bem-vinda, Bianca. Estava esperando você.