Capítulo 1 — Um Decreto Seco
Ano de 1756. Reinado de Yeongjo, o rei que não bebia, não perdoava e lavava as orelhas.
Mun Do-jin, vinte e quatro anos, funcionário de nível baixíssimo do Departamento de Registros, estava ajoelhado no salão do trono com a testa grudada no chão e a alma já a caminho do outro mundo.
— Levante a cabeça — disse o rei Yeongjo.
— Majestade, se for pelo erro de três moedas na contabilidade do celeiro, eu já confessei no mês passado...
— É justamente por isso que você está aqui.
Do-jin levantou a cabeça, atônito. O rei, magro e de olhar penetrante, segurava um rolo de papel com a seriedade de quem decide o destino de um reino.
— A colheita foi péssima, o povo passou fome, e eu proibi a bebida alcoólica em todo o país. Até os ancestrais beberão água nos rituais deste ano, porque ninguém gasta arroz em vinho enquanto crianças choram de fome. — O rei ergueu um dedo. — Mas me chegam relatos de que existe uma aldeia chamada Haengchon onde o povo é suspeitamente alegre.
— Alegre, Majestade?
— Canta em plena tarde. Dança no mercado. Os ministros que mandei lá voltaram sorridentes demais e sem nenhuma prova. — O rei suspirou. — Preciso de um inspetor secreto que não seja subornável. Li no seu relatório que você denunciou a si mesmo por três moedas. Um homem assim é raro. Ou muito honesto, ou muito tolo.
— Provavelmente as duas coisas, Majestade — respondeu Do-jin, com sinceridade lamentável.
O rei quase sorriu.
— Será o meu amhaeng-eosa. Aqui está o seu mapae, o disco de bronze que prova sua autoridade. Guarde-o bem e só o mostre em último caso.
— Majestade, eu... é uma honra tão imensa, que o nobre espírito de Vossa Majestade, brilhante como mil sóis...
— Basta. — O rei fez um gesto, e um eunuco correu para trazer uma bacia de água limpa. Yeongjo mergulhou os dedos e lavou as orelhas, uma de cada vez, sob o olhar horrorizado de Do-jin. — Não suporto bajulação. Preciso purificar os ouvidos.
— Perdão! — Do-jin se curvou de novo. — Há outro problema, Majestade. Eu não posso beber. Um único gole me deixa... incontrolável.
— Melhor ainda. Não pode ser tentado. Vá.
Do-jin saiu do palácio com o mapae escondido nas dobras da roupa e o estômago embrulhado. Seu único companheiro era o criado Dol-soe, um rapaz forte, de cérebro pequeno e coração enorme, que carregava a bagagem inteira e uma esperança inabalável de que tudo daria certo.
— Mestre, como vamos entrar em Haengchon sem sermos descobertos?
— Disfarçados, Dol-soe. Vamos vender vassouras.
— Mas o senhor nunca vendeu vassouras.
— E você acha que alguém vai desconfiar de um homem tão ruim em vender vassouras?
Dol-soe ponderou, com a gravidade de um filósofo.
— Não, mestre. Ninguém desconfiaria.
E assim, sob um céu de outono limpo e sem nenhum aviso do que viria, partiram os dois, carregando trinta vassouras, um disco de bronze e uma coragem exatamente do tamanho de três moedas.