A herança da vovó Nilce
A vovó Nilce sempre dizia que a vida era um rio e que cada pessoa nascia com um remo diferente. Bia nunca entendeu direito o que isso queria dizer, até o dia em que o advogado leu o testamento numa sala abafada, cheirando a naftalina e café requentado.
— Para a minha neta Beatriz — leu ele, ajustando os óculos —, deixo a caixa verde que está embaixo da cama.
Foi tudo. Nenhuma casa, nenhuma conta, nenhum anel de família. Apenas uma caixa. Os tios se entreolharam, entre aliviados e decepcionados. Bia, com dezesseis anos e o rosto ainda inchado de chorar, apenas assentiu.
Em casa, no quarto pequeno que dividia com a mãe, ela puxou a caixa de dentro do embrulho de jornal. Era de madeira, com dobradiças enferrujadas e um cadeado de latão. A chave estava presa à tampa por um barbante, com um bilhete: "Abra sozinha, e só depois de escurecer."
Esperou a noite cair. O quarto ficou iluminado apenas pela luminária de cabeceira, e a casa inteira cheirava a feijão de panela.
A chave girou com um estalo. Dentro, embrulhado em tecido encerado, havia um mapa. Um mapa antigo, de papel grosso e amarelado, rasgado ao meio, com apenas uma das metades preservada. Via-se um rio sinuoso, com curvas desenhadas à mão e nomes quase apagados: Praia do Sol Morto, Cachoeira dos Três Irmãos, Lago do Espelho. No canto superior, em letra tremida, uma frase: "A Cidade que o Rio Esqueceu."
Embaixo do mapa, uma bússola de bronze, pesada e fria. Bia a pegou na palma da mão e franziu a testa. A agulha apontava, teimosa, para o sudoeste, mesmo quando ela girava o corpo.
— Está quebrada — murmurou.
Mas havia ainda um terceiro objeto na caixa: um caderno de capa de couro, preenchido pela letra miúda da avó. Bia o abriu na primeira página.
"Querida Bia, se você está lendo isto, é porque eu não tive tempo de fazer a viagem de novo. Quando tinha a sua idade, descia o Araguaia num barco de madeira com meu irmão Amâncio. Encontramos uma cidade que ninguém acredita que existe. Prometi nunca contar. Mas agora a promessa é sua para quebrar. A bússola não aponta para o norte. Aponta para o que você mais precisa encontrar."
O coração de Bia disparou. Lembrou de todas as histórias que a avó contava sobre o tio Amâncio, que desaparecera anos antes numa viagem pelo rio e nunca mais voltara.
No dia seguinte, durante o almoço na casa da tia, ela espalhou o mapa sobre a mesa. O primo Teco, de dezoito anos, deixou o garfo cair. Era magrelo, cheio de sardas, e vivia grudado a um celular de tela trincada.
— Isso é tão maluco — sussurrou, com os olhos brilhando. — Vai atrás?
— Vou. — Bia surpreendeu-se com a própria firmeza. — Só preciso de alguém que saiba remar.
— Eu sei fazer coisa melhor. — Teco sorriu de lado. — Sei brigar com jacaré no grito.
Os dois riram. Do lado de fora, a chuva tinha parado, e o sol de fim de tarde pintava o chão de laranja. Em algum lugar além do horizonte, o rio esperava, paciente, como esperara por quarenta anos.