O Segredo da Livraria AzulCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

O bilhete dentro do livro

Marcos Albuquerque havia gastado todas as economias para abrir a Livraria Azul, num sobrado estreito da rua Direita, em Ouro Preto. A loja ainda cheirava a tinta fresca e papel velho. Nas prateleiras de madeira, centenas de livros usados, comprados a quilo em estantes de leilões, aguardavam leitores.

Era uma terça-feira nublada quando, ao arrumar uma caixa de romances antigos, ele sentiu algo escorregar de dentro de um exemplar de "O Cortiço". Um pedaço de papel dobrado, amarelado, com uma letra apressada.

"Se alguém encontrar isto, por favor, avise a Beatriz. Estou preso no porão da casa de pedra. Não confie no Dr. Leopoldo. 12/03/1987."

Marcos releu três vezes. O coração disparou. Podia ser brincadeira, um recado de escola, um bilhete de livro de bolso esquecido. Mas a data e o desespero da caligrafia pareciam reais demais.

— Beatriz — murmurou. — Casa de pedra. Dr. Leopoldo.

Procurou o nome do antigo dono do livro. Na primeira página, em tinta azul, uma assinatura: "Gilberto Nogueira". A caixa viera de um leilão de imóveis de uma antiga casa em Mariana, vendida pelos herdeiros.

Naquela tarde, a campainha da porta tilintou, e uma senhora de cabelos curtos e olhos vivos entrou, apoiada numa bengala.

— Procuro um livro que li na juventude — disse. — Chama-se "A Hora da Estrela". Tem?

Marcos buscou o exemplar e o entregou. Quando ela o abriu, deixou escapar um suspiro.

— Esta edição. Igualzinha à do meu irmão.

— Seu irmão gostava de ler?

— Gilberto devorava livros. — Ela sorriu com tristeza. — Desapareceu em 1987. Nunca descobrimos o que aconteceu.

Marcos sentiu um frio descer pela espinha. Hesitou, mas a curiosidade foi mais forte. Tirou o bilhete do bolso e o estendeu sobre o balcão.

— A senhora conhece essa letra?

Ela leu. Empalideceu. Apoiou-se no balcão, como se o chão tivesse sumido.

— É dele — sussurrou. — Eu sou a Beatriz.

O silêncio na livraria foi tão espesso que se podia ouvir o relógio da parede. Beatriz, depois de alguns minutos, levantou os olhos, brilhantes.

— Onde encontrou isto?

— Dentro de um livro comprado num leilão. De uma casa em Mariana.

— A casa de pedra — disse ela. — Pertencia ao Dr. Leopoldo Teixeira, médico do meu pai. Gilberto trabalhava lá como assistente. Disseram que ele fugira para o Rio, mas eu nunca acreditei.

Marcos ficou calado. Sabia que, se aceitasse, estaria entrando num caminho sem volta. Mas lembrou do que a mãe dizia: livros eram para ser lidos, e histórias, para serem terminadas.

— Beatriz — falou, afinal. — Posso ajudar a senhora a descobrir a verdade?

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