O Último Bonde de Santa TeresaCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

Largo do Guimarães

O sino do bonde tocou duas vezes, como fazia todas as manhãs, e Seu Aníbal Ferreira ajustou o boné diante do espelhinho do posto de condução. Aos cinquenta e oito anos, tinha o rosto vincado pelo sol e os olhos cansados de quem viu a cidade mudar de cara muitas vezes.

Era uma quinta-feira de março de 1967, e aquela seria a última viagem completa do bonde de Santa Teresa antes que a prefeitura decidisse "modernizar" o transporte. Ninguém lhe dissera isso com todas as letras. Mas ele sabia. Os cartazes de ônibus já circulavam pelos postes, e as rotas dos bondes encolhiam a cada trimestre.

— Bom dia, seu Aníbal! — gritou dona Lourdes, a vendedora de bolinhos, entrando no estribo com sua cesta de palha. — Hoje a viagem é por conta da casa.

— A casa é a Companhia Carris, dona Lourdes.

— Então que a Carris pague os bolinhos.

Ele riu, balançou a cabeça e puxou a alavanca. O bonde estremeceu, rangeu, e se pôs em movimento ao longo dos trilhos, subindo a ladeira do Largo do Guimarães com um solavanco amigável.

Santa Teresa acordava aos poucos. As casas de azulejos coloridos exibiam janelas abertas, roupas nos varais, crianças correndo pelas calçadas. Lá embaixo, entre os morros, a baía brilhava prateada, cortada por barquinhos.

No primeiro ponto, subiu um jovem de paletó apertado, com uma pasta de couro rachada. Chamava-se Otávio e era estudante de direito. Sentou-se no banco da frente, abriu um livro grosso e fingiu ler, mas seus olhos corriam o tempo todo para a janela.

— Está nervoso, rapaz? — perguntou Aníbal, por cima do ombro.

— Tenho uma prova hoje, seu Aníbal.

— De quê?

— Direito constitucional. — Ele engoliu em seco. — Dizem que a Constituição vai mudar.

— Já mudou duas vezes desde que eu comecei a dirigir este bonde — disse o condutor, sem tirar os olhos dos trilhos. — O que não muda é o povo que sobe e desce.

No ponto seguinte, entrou uma mulher de vestido florido e chapéu de palha, com uma menina de uns seis anos pela mão. A mulher tinha o olhar cuidadoso de quem teme ser notada. Sentou-se no último banco, ajeitou a criança no colo e ficou olhando o chão.

Aníbal reparou nela pelo espelho. Algo no jeito dela lhe lembrava a filha, que fugira de casa havia trinta anos, deixando só um bilhete e um chapéu de palha. Afastou o pensamento, como quem espanta uma mosca.

O bonde subiu a Rua Almirante Alexandrino, passando pelos casarões antigos, pelas mangueiras centenárias, pelo muro do convento. A cada ponto, mais passageiros embarcavam: um padeiro com a farinha ainda nas mãos, uma costureira com uma sacola de retalhos, dois soldados de licença, um senhor de bengala e olhar perdido.

Cada um trazia um silêncio particular. E Aníbal, que carregava gente havia trinta e dois anos, sabia ler esses silêncios como quem lê horário de ônibus.

Ao chegar ao Curvelo, quando o trilho fazia uma curva fechada sobre o abismo, ouviu atrás de si um grito agudo.

— Pare! — gritou a mulher do chapéu de palha. — Por favor, pare o bonde!

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