A CASA QUE NÃO DEVERIA ESTAR VAZIA.

"Existem lugares onde o passado permanece enterrado. Outros, porém, parecem ter sido construídos para impedir que ele descanse."
12 de novembro de 1978 — Long Island, Nova York.
A primeira coisa que Margaret Whitmore percebeu naquela tarde foi a ausência dos pássaros.
A estrada que conduzia à propriedade era cercada por árvores antigas, cujos galhos se inclinavam sobre o asfalto como dedos retorcidos. O vento movimentava as folhas secas, arrastando-as pela estrada, mas não havia qualquer sinal de vida entre os arbustos.
Nenhum canto.
Nenhum movimento.
Apenas o ruído constante dos pneus sobre o pavimento molhado.
No interior do automóvel, Thomas Hipnose dirigia com uma das mãos apoiada no volante. Parecia satisfeito. Após meses procurando uma propriedade que coubesse no orçamento da família, havia finalmente encontrado aquilo que considerava uma oportunidade extraordinária.
— Você continua preocupada com o preço? — perguntou ele.
Margaret desviou os olhos da janela.
— Estou preocupada com o fato de ninguém querer comprar essa casa.
Thomas soltou uma breve risada.
— Nem todo mundo tem a oportunidade de adquirir uma propriedade dessas.
— Ou talvez ninguém queira morar nela.
Ele não respondeu.
No banco traseiro, Daniel, de onze anos, observava a paisagem. Sua irmã mais nova, Elizabeth, estava distraída com uma boneca de porcelana, presente de sua avó.
— Pai?
— Sim, filho?
— A casa tem porão?
— Tem. Por quê?
Daniel demorou alguns segundos para responder.
— Só queria saber.
Thomas olhou pelo retrovisor.
— Você vai ter bastante espaço para brincar.
O menino voltou a observar a janela.
Havia alguma coisa naquela estrada que lhe provocava uma sensação desagradável. Não era exatamente medo. Era como se já tivesse passado por aquele lugar antes, embora tivesse certeza de que nunca estivera ali.
Dez minutos depois, o automóvel finalmente parou.
A propriedade surgiu diante deles.
Era uma construção imponente, de dois andares, com arquitetura colonial americana. As paredes de madeira estavam desgastadas pelo tempo, e algumas partes da fachada apresentavam manchas escuras provocadas pela umidade.
As janelas eram altas e estreitas.
O telhado parecia excessivamente inclinado.
Na parte superior, uma pequena janela circular observava a entrada da propriedade.
Thomas desligou o motor.
— Chegamos.
Margaret não se movimentou.
Ficou olhando para a construção, tentando compreender por que aquela casa lhe parecia tão familiar.
— Thomas...
— O quê?
— Você tem certeza de que ninguém está morando aqui?
Ele observou a fachada.
— Claro que tenho.
Entretanto, naquele exato instante, uma das cortinas do segundo andar se movimentou.
Como se alguém tivesse acabado de se afastar da janela.
A porta principal estava destrancada.
Thomas girou a maçaneta e empurrou lentamente a madeira envelhecida.
O interior revelou um corredor comprido, iluminado apenas pela luz acinzentada que atravessava as janelas.
O cheiro era intenso.
Madeira molhada, poeira e alguma coisa que Margaret não conseguiu identificar.
A sala de estar possuía uma lareira de pedra, dois sofás cobertos por lençóis brancos e um relógio antigo pendurado na parede.
O relógio estava parado.
Marcava exatamente 3h15.
— Bonita, não acha? — perguntou Thomas.
Margaret caminhou alguns passos.
Seus olhos percorriam os detalhes da sala, procurando qualquer sinal de que alguém tivesse permanecido ali recentemente.
Havia marcas no assoalho.
Não eram marcas de móveis.
Eram pequenas depressões, como se alguma coisa pesada tivesse sido arrastada repetidamente pelo mesmo caminho.
— Thomas, venha ver isso.
Ele se aproximou.
— O quê?
Margaret apontou para o chão.
Thomas observou por alguns segundos.
— Deve ser coisa dos antigos proprietários.
— Parece recente.
— Margaret, pelo amor de Deus. Nós acabamos de chegar. Não vamos começar a procurar problemas.
Ela se afastou.
Não queria discutir.
Mas, antes de sair da sala, olhou novamente para o relógio.
Por uma fração de segundo, teve a impressão de que o ponteiro dos minutos havia se movimentado.
A primeira noite foi silenciosa.
Silenciosa demais.
Daniel dormia no quarto próximo à escada. Elizabeth havia escolhido um cômodo menor, onde havia uma janela voltada para o jardim.
Margaret e Thomas ficaram no quarto principal.
Por volta das onze horas, a chuva começou novamente.
O vento atravessava as frestas das janelas, produzindo um assobio baixo e contínuo.
Margaret estava quase adormecendo quando ouviu três batidas.
Toc.
Toc.
Toc.
Abriu os olhos.
Permaneceu imóvel.
As batidas vinham de algum lugar abaixo do quarto.
Olhou para Thomas.
Ele dormia.
Então ouviu novamente.
Dessa vez, não eram batidas.
Era uma voz.
— Margaret...
Ela se sentou lentamente.
O som havia vindo do corredor.
— Thomas?
Nenhuma resposta.
Ela olhou para a porta entreaberta.
A escuridão do corredor parecia mais profunda do que deveria.
— Margaret...
Dessa vez, a voz estava mais próxima.
Ela reconheceu algo naquela pronúncia.
Uma familiaridade inexplicável.
Como se alguém estivesse chamando por ela havia muitos anos.
Margaret levantou-se e caminhou até a porta.
Antes de alcançá-la, ouviu um pequeno ruído vindo do quarto ao lado.
A maçaneta havia girado.
Ela voltou imediatamente para a cama.
Na manhã seguinte, encontrou a porta do quarto de Elizabeth completamente aberta.
A menina estava dormindo tranquilamente.
Porém, sua boneca de porcelana estava sentada no chão, de frente para a entrada.
Margaret a recolocou sobre a cama.
Foi então que percebeu algo escrito no espelho.
As letras estavam desenhadas sobre a superfície embaçada.
BEM-VINDA DE VOLTA.
Margaret sentiu o estômago apertar.
Não chamou Thomas.
Não chamou os filhos.
Apenas pegou um pano e apagou as palavras.
Às dez horas da manhã, Thomas decidiu conhecer o porão.
A escada ficava escondida atrás de uma pequena porta na cozinha.
Quando a abriu, um cheiro desagradável subiu imediatamente.
Ele encontrou uma lanterna sobre uma prateleira e começou a descer.
Os degraus rangiam sob seu peso.
O porão era amplo, com paredes de pedra e pequenas janelas próximas ao teto.
Havia caixas, ferramentas antigas e móveis cobertos por tecidos.
Thomas percorreu o ambiente.
No fundo, encontrou uma porta de madeira que não aparecia na planta apresentada pelo corretor.
Era estreita.
Possuía uma fechadura enferrujada.
E havia algo escrito nela.
Thomas aproximou a lanterna.
As palavras estavam profundamente marcadas na madeira:
NÃO ABRA QUANDO O RELÓGIO PARAR.
Ele soltou uma risada nervosa.
— Que brincadeira idiota...
Tentou girar a maçaneta.
Estava trancada.
Quando decidiu voltar, ouviu um ruído atrás de si.
Um som baixo, semelhante ao arrastar de uma cadeira.
Virou-se rapidamente.
Não havia ninguém.
Entretanto, a lanterna iluminou algo que não estava ali antes.
Uma cadeira.
Posicionada no centro do porão.
Sobre ela, havia uma fotografia.
Thomas aproximou-se.
Era uma fotografia da própria casa.
A fachada parecia mais antiga, mas não havia dúvidas de que era a mesma propriedade.
Três pessoas estavam diante da entrada.
Um homem, uma mulher e uma criança.
No verso, havia uma data:
1964.
Abaixo dela, uma frase escrita à mão:
O último deles nunca saiu.
Thomas guardou a fotografia no bolso e subiu.
Não contou nada à esposa.
Naquela tarde, Daniel encontrou uma porta no corredor superior.
Era uma porta estreita, pintada de branco, localizada entre dois quartos.
Não havia maçaneta.
Apenas uma pequena fechadura.
O menino aproximou o ouvido.
Silêncio.
Estava prestes a sair quando escutou uma voz masculina.
— Daniel?
Ele se afastou imediatamente.
Olhou para os dois lados do corredor.
Ninguém.
A voz veio novamente.
— Daniel, você chegou cedo.
O menino sentiu um arrepio.
— Quem está aí?
Do outro lado, alguma coisa arranhou lentamente a madeira.
— Você não deveria ter vindo com eles.
Daniel correu.
Desceu as escadas e encontrou o pai na sala.
— Pai!
Thomas se virou.
— O que aconteceu?
— Tem alguém dentro da parede!
Thomas ficou em silêncio.
— Como assim?
— Ele falou comigo!
Margaret apareceu na entrada da sala.
— Daniel, o que você está dizendo?
O menino começou a chorar.
— Tem um homem aqui!
Thomas se ajoelhou diante dele.
— Escute, filho. Não existe ninguém aqui além de nós.
Daniel olhou para o pai.
Depois, lentamente, apontou para o alto da escada.
— Então quem está olhando para a gente?
Thomas e Margaret se viraram.
No segundo andar, uma figura estava parada no corredor.
Era alta.
Vestia roupas escuras.
Seu rosto permanecia escondido pela sombra.
Ninguém se movimentou.
Ninguém pronunciou uma palavra.
Então a figura deu um passo para trás.
E desapareceu.
Thomas subiu as escadas imediatamente.
Percorreu os quartos, abriu os armários e verificou o banheiro.
Não encontrou ninguém.
Quando voltou à sala, Margaret estava abraçada aos filhos.
— Nós precisamos ir embora — disse ela.
Thomas não respondeu.
Estava segurando alguma coisa na mão.
A fotografia encontrada no porão.
Margaret olhou para o objeto.
— O que é isso?
Ele entregou a imagem.
Ela observou o homem, a mulher e a criança.
Depois, seus olhos pararam sobre a pequena figura posicionada atrás deles.
Uma figura que não havia percebido anteriormente.
Era um homem.
Estava parado na janela do segundo andar.
Exatamente no mesmo lugar onde haviam visto a presença naquela tarde.
Margaret virou a fotografia.
Seu rosto perdeu a cor.
Havia uma segunda inscrição no verso, quase escondida sob a primeira.
Família Whitmore — Novembro de 1978.
Ela ergueu os olhos.
— Thomas...
— O que foi?
— Essa fotografia...
— O que tem ela?
Margaret apontou para a inscrição.
— Como isso é possível?
Thomas pegou a fotografia novamente.
Leu a frase.
Depois olhou para a data.
A fotografia havia sido tirada naquela manhã.
Naquele mesmo dia.
Às 3h15 daquela madrugada, o relógio da sala voltou a funcionar.
O primeiro movimento do ponteiro produziu um estalo tão alto que Margaret acordou imediatamente.
Ela olhou para Thomas.
Ele também estava acordado.
Os dois permaneceram em silêncio.
Então ouviram passos.
Lentos.
Pesados.
Vindos do corredor.
Um passo.
Depois outro.
Os ruídos pararam diante da porta do quarto.
Thomas se levantou.
Margaret segurou seu braço.
— Não abra.
Ele olhou para ela.
Do outro lado, alguém respirou profundamente.
A maçaneta começou a girar.
Uma voz masculina atravessou a madeira.
— Thomas...
O homem permaneceu imóvel.
A voz continuou:
— Você demorou muito.
E então, algo bateu três vezes na porta.
Toc.
Toc.
Toc.
Thomas recuou.
Margaret começou a chorar em silêncio.
No corredor, os passos voltaram.
Dessa vez, afastando-se.
Quando o silêncio finalmente retornou, Thomas abriu a porta.
Não havia ninguém.
Apenas um pequeno envelope sobre o assoalho.
Seu nome estava escrito na frente.
THOMAS WHITMORE.
Ele o recolheu e abriu cuidadosamente.
Dentro havia uma folha amarelada, dobrada ao meio.
A mensagem continha apenas duas frases:
Vocês não foram os primeiros a chegar.
E não serão os últimos a sair.
Thomas ergueu os olhos.
No final do corredor, a pequena porta branca estava aberta.
E, pela primeira vez, ele percebeu que havia alguém sentado do outro lado.
Uma criança.
Com as mãos sobre os joelhos.
O rosto voltado para a parede.
Thomas piscou.
A criança desapareceu.
Mas deixou uma última coisa para trás.
Uma voz infantil, quase inaudível, atravessou o corredor:
— Agora somos seis.
Thomas olhou para trás.
Margaret estava na entrada do quarto.
Daniel e Elizabeth dormiam nos quartos ao lado.
A família tinha quatro integrantes.
Ele voltou os olhos para a escuridão.
E compreendeu que havia alguém naquela casa que já os considerava parte de sua própria família.
Naquela noite, Thomas Whitmore entendeu que não havia comprado uma casa.
Havia aceitado um convite.
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Algumas casas guardam lembranças. Outras guardam seus moradores.
HAITANI — FIM DO PRIMEIRO CAPÍTULO.