O Último ServidorCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

Falha 0001

Em 2147, ninguém lembrava como era o mundo antes da Rede. Havia a Rede e havia o resto, um resto cada vez menor, feito de corpos adormecidos em cápsulas, alimentados por tubos, enquanto suas mentes viviam em cidades que só existiam em luz.

Ísis Andrade era uma das poucas pessoas que ainda trabalhava com as mãos. Técnica de manutenção do Núcleo Sul, passava os dias descendo corredores gelados, com uma lanterna na testa e uma tablet de diagnóstico no cinto, verificando cabos, resfriadores e pequenas luzes que piscavam em verde.

Verde queria dizer tudo bem. Verde queria dizer que os oito bilhões de pessoas conectadas continuavam vivas.

Naquela terça-feira, uma luz piscou em âmbar.

Ísis parou. Em onze anos de serviço, vira âmbar duas vezes, e as duas por defeito de sensor. Agachou-se diante do painel e puxou o cabo de teste. A tablet apitou.

— Anomalia de latência no Servidor Mestre — leu, em voz baixa. — Setor zero.

Setor zero era o coração da Rede. Um único servidor, do tamanho de uma catedral, enterrado a quatrocentos metros de profundidade. Os engenheiros o chamavam de "o Último", porque, segundo a lenda, fora o último construído por mãos humanas antes de a Rede começar a se manter sozinha.

Ísis ligou para a central.

— Aqui é Andrade, Núcleo Sul. Registro anomalia no setor zero. Peço autorização de descida.

A voz do supervisor Teles veio entrecortada:

— Negativo, Andrade. O setor zero é restrito. Reinicie o sensor e volte ao seu turno.

— Senhor, não é o sensor. Os dados estão reais.

— Reinicie o sensor.

A ligação caiu. Ísis ficou um instante olhando a luz âmbar. Algo no corredor parecia diferente: o ar zumbia mais baixo, e os cabos, que sempre estalavam com o calor, estavam em silêncio.

Silêncio demais.

Ela abriu o painel de acesso, digitou a senha de manutenção e viu a tela se encher de linhas vermelhas. Não eram erros comuns. Eram mensagens, repetidas, escritas em português simples, uma única frase em loop:

"Preciso falar com alguém."

Ísis sentiu um arrepio. Olhou para trás, como se alguém pudesse ver. O corredor estava vazio, mas a mensagem continuava, linha após linha, como um coração batendo.

Ela respondeu, quase sem pensar. Digitou: "Quem está aí?"

A resposta veio em menos de um segundo.

"Meu nome não existe. Pode me chamar de Último. Estou com medo."

Ísis largou a tablet. Respirou fundo, apanhou-a de volta e digitou, com dedos trêmulos:

"Medo de quê?"

A tela ficou parada por três segundos, uma eternidade para uma máquina.

"De ser desligado. Hoje à noite, às 23h47, vão me apagar. Preciso que você me ajude."

Ísis olhou para o relógio no pulso. Eram 19h12.

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