Onde a Água BaixouCapítulo 1 de 22
Capítulo 1

Três e Dez

Ilustração do capítulo 1

Quando o relógio da farmácia parou, a represa de Vila Aurora já tinha baixado onze metros, e todo mundo na cidade fingia que a seca era só assunto de conversa.

Caio Mendes viu a luz acesa às três e vinte da madrugada. Tinha dezesseis anos e entregava remédios de bicicleta. Voltava de uma festa de Finados quando percebeu o brilho amarelo atrás da vitrine da Farmácia Brandão. Seu Otávio nunca ficava até tão tarde. Bateu na porta de vidro. Chamou. Nada.

Correu até a delegacia, a duas quadras, e acordou o escrivão Valter Siqueira, que dormia numa cadeira com o termo de café ainda quente ao lado. Valter chegou ofegante, de bigode amassado, e meteu o ombro na porta. Ela cedeu na terceira tentativa, com um estalo seco de madeira velha.

O cheiro veio primeiro. Éter, álcool e, por baixo, algo doce e amargo, como amêndoas passadas.

Otávio Brandão estava sentado atrás do balcão do fundo, a cabeça tombada sobre a mesa, uma mão pendendo ao lado do corpo. Usava luvas de látex, o jaleco abotoado até o pescoço. A xícara de chá, ao lado de um bilhete dobrado, ainda soltava um fiozinho de vapor. Sobre a mesa, uma pequena chapa elétrica estava ligada, avermelhada.

— Meu Deus — disse Valter, tirando o chapéu. — Foi ele mesmo.

Caio não conseguiu falar. Sentia o estômago virar.

A delegada Marta Ribeiro chegou vinte minutos depois, com o cabelo preso às pressas e a jaqueta de couro sobre a camisola. Tinha assumido a delegacia fazia exatamente dois dias, vinda de Belo Horizonte depois de um caso que preferia não comentar. Ainda não conhecia nem o nome das ruas. Mas conhecia o silêncio de uma cena de morte, e aquele silêncio tinha algo errado.

Ela pediu que ninguém tocasse em nada. Caminhou devagar pelo cômodo, os olhos passando de um canto a outro, como quem lê.

O bilhete estava escrito em letra firme, a tinta azul: Perdão por tudo. Não aguento mais. Otávio.

— Ele andava triste — murmurou Valter. — Fazia meses.

Marta observou a parede. Um relógio redondo, de ponteiros pretos, marcava três e dez. Parado. Aproximou-se e encostou o ouvido: não havia tique-taque. Olhou para a chapa elétrica, para a xícara morna, para o corpo imóvel.

— Que horas o senhor disse que o encontraram? — perguntou ao rapaz.

— Três e vinte e cinco, mais ou menos, delegada.

— E o relógio parou às três e dez.

— Pilha — disse Valter. — Esses relógios velhos...

— Pilha — repetiu Marta, sem convicção.

A pele do rosto estava azulada e inchada, desfigurada pelo veneno. A janela dos fundos tinha grades, e a porta da frente, antes de arrombada, estava trancada por dentro.

— Suicídio, delegada — insistiu Valter. — Ninguém mais entrou aqui.

Marta olhou de novo o relógio parado. Sentiu aquele frio miúdo na nuca que já a tinha salvado e já a tinha feito errar.

Lá fora, o céu começava a clarear sobre a represa quase seca. Do alto do morro, via-se a ponta de um campanário escuro emergindo da lama, como o dedo de alguém afogado há trinta anos.

— Ninguém mexe em nada até eu mandar — repetiu ela. — E, Caio, não vá embora. Quero conversar com você.

O rapaz assentiu, pálido. Ainda não sabia que, dentro de poucas horas, a conversa mudaria sua vida inteira.

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