O último rastro
A Reserva Serra do Entardecer ocupava quarenta mil hectares de cerrado no interior de Goiás, e, de todos os animais que abrigava, havia um que as pessoas da região consideravam quase mágico: o lobo-guará de Nina.
Nina Albuquerque era bióloga, trinta e dois anos, doutora em ecologia, e passara os últimos quatro estudando uma única fêmea de lobo-guará que ela mesma batizara de Aurora. Aurora tinha um colar de rastreamento e o hábito de aparecer, toda madrugada, num mesmo trecho da estrada de terra, caçando tatus e frutas de lobeira.
Naquela segunda-feira, Aurora não apareceu.
Nina esperou até as sete da manhã, de binóculo em punho, sentada no capô do jipe. Verificou o sinal do colar no tablet. Estava parado, a quase vinte quilômetros dali, fora dos limites da reserva.
— Isso não é possível — murmurou. — Ela nunca sai da área.
Ligou para a base. Quem atendeu foi Zé Tião, guarda-parque de cinquenta e poucos anos, baixinho, de bigode grosso, conhecido por falar pouco e conhecer cada trilha da serra.
— Zé, o sinal da Aurora está parado na estrada velha de Cristalina. Preciso ir lá.
— Dona Nina, a senhora sabe que aquilo é terra de ninguém.
— Eu sei. Vem comigo?
Do outro lado, um suspiro.
— Vou buscar o café.
Em quarenta minutos estavam os dois no jipe, sacolejando pela estrada de terra vermelha. Zé Tião dirigia, calado, com os olhos fixos no horizonte. Nina checava o sinal, que não se mexia.
— Se o colar está parado — disse ela —, ou o bicho morreu ou o colar foi arrancado.
— Ou os dois.
Chegaram ao ponto indicado. O sinal vinha de um barranco coberto de capim alto, ao lado de uma cerca de arame. Nina desceu, abriu caminho entre as folhas e encontrou o colar. Estava aberto, jogado na terra, sem sinal de luta.
Ajoelhou-se para examiná-lo. Ao lado, na terra úmida, havia uma pegada de bota, grande, recente. E um objeto brilhante: um pequeno frasco de vidro, vazio, com uma etiqueta quase apagada.
Nina pegou o frasco com um lenço e leu em voz alta:
— "Tranq... zolam... veterinário". Zé, isso é anestésico de grandes mamíferos.
— Quem usa esse tipo de coisa por aqui?
— Veterinários. Pesquisadores. E traficantes.
Zé Tião coçou o bigode.
— Aurora foi capturada?
— Sim. E por alguém que sabia onde ela estaria.
Nina ficou em silêncio. A cerca de arame ao lado tinha sido cortada, e o corte era limpo, feito com alicate profissional. Do outro lado, um caminho de terra levava a uma estradinha secundária, quase invisível.
— Vamos seguir — decidiu.
— Dona Nina, isso é perigoso.
— Eu sei. Mas ela é minha responsabilidade.
Zé Tião olhou para ela por um bom tempo e, sem dizer nada, ligou o motor.