O cofre de Teodoro Bastos
Helga Brandão chegou à mansão dos Bastos às sete da manhã, com uma maleta de peritagem, um termo de confidencialidade assinado e duas noites mal dormidas. A casa ficava no alto de uma colina em Campos do Jordão, cercada de araucárias, e parecia mais um mausoléu do que uma residência.
Teodoro Bastos, oitenta e um anos, dono de uma rede de farmácias e de metade do centro de Curitiba, morrera três dias antes, de causa natural, na poltrona da biblioteca. Vivia sozinho havia décadas, odiava a família, recusava entrevistas e, segundo os funcionários, falava com o cachorro mais do que com qualquer humano.
O advogado do espólio, doutor Ricardo Esteves, recebeu-a no saguão com um aperto de mão seco.
— Senhora Brandão. Obrigado por vir. Seu currículo é impecável.
— Obrigada. O que exatamente querem que eu faça?
— Abra um cofre. — Ele a conduziu por um corredor de mármore. — Não é um cofre comum.
A biblioteca era enorme, com estantes até o teto, escadas de rodinhas e um lustre de cristal. No centro, sobre uma mesa de mogno, repousava um aparelho do tamanho de uma caixa de sapatos, de metal escuro, com uma tela pequena e um teclado alfanumérico.
— Um cofre digital — explicou Esteves. — Contém o testamento, as chaves das contas no exterior e os documentos da fundação. Se não for aberto em setenta e duas horas, uma cláusula automática doará todo o patrimônio para uma instituição que o doutor Teodoro detestava.
— Qual?
— A Fundação Santo Expedito. — Esteves fez uma careta. — Ele dizia que eram ladrões de batina.
Helga contornou a mesa, examinando o aparelho. Era um modelo raro, fabricado por uma empresa suíça já falida, com criptografia de camadas. Não dava para forçar. Não havia entrada de cabo. Só uma senha.
— Quantas tentativas?
— Três. Depois o aparelho se auto-destrói.
— Ótimo — murmurou ela. — Tenho a mania de gostar de pressão.
Pediu para ficar sozinha. Esteves hesitou, mas saiu. Helga se sentou na poltrona de Teodoro, a mesma onde ele fora encontrado, e examinou a sala ao redor: os livros, as fotografias, o aquário vazio, um relógio de pêndulo parado às 4h17.
Em cima da mesa, ao lado do cofre, havia um bilhete datilografado, preso por um peso de papel:
"A senha é a única coisa que posso deixar sem medo de que roubem. Todos a conhecem. Ninguém a lê."
Helga leu a frase duas vezes. Sorriu.
— Gostei de você, velho — sussurrou. — Vamos ver se mereço.