Apagão
Às 21h47 de uma quinta-feira, São Paulo apagou.
Não foi um apagão como os outros, com um estalo, uma piscada e o murmúrio de vizinhos reclamando da concessionária. Foi um desligamento limpo, simultâneo, como se alguém tivesse puxado o fio da cidade inteira. Os semáforos morreram, os elevadores pararam entre andares, as telas dos celulares ficaram a única luz em doze milhões de rostos assustados.
Diana Tavares estava no quinto andar do prédio da Agência Nacional de Segurança Cibernética quando o monitor à sua frente ficou preto. Trinta e quatro anos, cabelos curtos, olheiras permanentes, uma caneca de café frio na mão. Ficou um segundo parada, ouvindo o silêncio das máquinas que, havia uma hora, zumbiam como uma colmeia.
— Geradores? — gritou alguém no corredor.
— Já deveriam ter ligado — respondeu outra voz.
Eles não ligaram. Diana pegou a lanterna da gaveta, uma das poucas coisas analógicas que ainda confiava, e foi até a sala de operações. Lá, uma dúzia de analistas se amontoava em volta de um único laptop, ligado à bateria, projetando sobre a parede um painel de logs que subiam sem parar.
— Estamos sob ataque — disse Heitor, o chefe da equipe, um homem corpulento de camisa suada. — Alguém invadiu o sistema de controle das subestações. Derrubou tudo em menos de noventa segundos.
— Quem?
— Não sabemos. Mas olha isso.
Ele apontou para uma linha na tela. Era um trecho de código, lançado em cascata pela rede, cheio de funções aninhadas e nomes de variáveis em português. Diana inclinou-se, sem entender por quê, mas com um incômodo crescente.
Havia um comentário no meio do código, escrito em letras minúsculas: "// se funcionar, é mágica; se não, é culpa do Wi-Fi".
Ela gelou.
— Heitor — disse, devagar. — Você tem como me imprimir esse arquivo?
— Impressora sem energia, Diana.
— Então copia no pen drive.
— O que está acontecendo?
Diana sentiu a garganta secar. Aquela frase fora escrita por ela, aos dezenove anos, num fórum antigo de programação, quando brincava de criar um vírus inofensivo para impressionar os amigos da faculdade. Chamava-se Fênix. Era um programa que se replicava sozinho, reativando sistemas desligados.
Nunca deveria ter saído do computador dela. Nunca.
— É meu — murmurou. — Esse código é meu.
O silêncio na sala foi tão espesso que se ouviu o clique de uma lanterna se desligando. Todos olhavam para ela. Heitor abriu a boca, fechou, e apontou para a porta.
— Venha comigo. Agora.
Atravessaram o corredor escuro, desceram duas escadarias e chegaram a uma sala sem janelas, onde um homem de terno cinza esperava, sentado atrás de uma mesa metálica. Diana reconheceu o rosto: era o secretário de Segurança Institucional, doutor Aurélio Prado.
— Senhorita Tavares — disse ele, sem sorrir. — Estávamos esperando por você.