Receitas que a Mãe Não Deixou EscritoCapítulo 1 de 5
Capítulo 1

O feijão de domingo

Minha mãe fazia o melhor feijão do mundo, e isso não é opinião, é fato estatístico. Fizemos a pesquisa uma vez, nós três, as filhas, na mesa da cozinha, depois de um almoço de domingo: perguntamos a todos os primos, tios e vizinhos presentes qual era a melhor comida que já tinham provado. Setenta por cento respondeu "o feijão da dona Ilda". Os outros trinta por cento eram parentes de má-fé.

Mamãe se chamava Ilda, tinha oitenta e um anos quando morreu, e jamais escreveu uma receita na vida.

— Receita é pra quem não sabe cozinhar — dizia, mexendo a panela. — Quem sabe, sente.

Essa frase nos assombraria nos meses seguintes.

Éramos três irmãs. Eu, Clara, a mais velha, professora, organizada, autoritária, segundo as outras duas. Dora, a do meio, enfermeira, geniosa e brincalhona, que vivia na ponte aérea entre a casa e o hospital. E Lia, a caçula, designer, que morava em outra cidade e vinha pouco, porque, dizia, "o trabalho é muito".

Nossa mãe morreu numa madrugada de agosto, durante o sono, de forma tranquila. Passamos o velório juntas, tomando café ruim em copo de plástico, falando baixinho. Foi depois, no domingo seguinte, que percebemos o buraco.

Ninguém sabia fazer o feijão.

— Eu estou com saudade da comida dela — disse Dora, olhando para o fogão apagado.

— Eu também.

— Por que a gente não tenta? — propôs Lia, com um jeito tímido.

Resolvemos reunir os ingredientes: feijão carioca, alho, cebola, louro, bacon, linguiça, sal, pimenta. Tudo certinho, conforme a memória nos ditava. Colocamos a panela de pressão no fogo, com a mesma colher de pau que nossa mãe usava, e esperamos.

Quando abrimos, quarenta minutos depois, o cheiro era bom. A cor, boa. O caldo, grosso. Mas, ao provar, nos entreolhamos em silêncio.

— Está... bom — disse Dora, sem convicção.

— Está comestível — corrigiu Lia.

— Falta alguma coisa — admiti.

— Falta a mamãe — completou Dora, com a voz embargada.

Ficamos as três em volta da panela, em silêncio. A cozinha parecia maior do que nunca. A janela dava para o quintal, onde ainda estavam as pimenteiras que ela cultivava. No parapeito, a velha caneca de café, de esmalte branco, com uma lasca na borda.

— Vamos tentar de novo — disse Lia. — Domingo que vem.

Concordamos. Era uma promessa tácita.

Não sabíamos, naquele instante, que seriam muitos domingos. Nem que cada tentativa fracassada traria à tona coisas que estavam enterradas há décadas.

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